Na casa abandonada, uma aula de jornalismo

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Não admira a comoção pública causada pelo podcast “A Mulher da Casa Abandonada”, uma pequena obra prima do jornalista Chico Felitti. Além de excelência técnica e maestria na condução da história, em que o repórter-narrador carrega os ouvintes em todo o percurso da investigação, o podcast é “um retrato do Brasil” (o país de patrões brancos que exploram mulheres negras pobres), como disse o próprio Chico em uma entrevista ao vivo no dia 20 passado à colega Magê Flores na TV Folha.

A serenidade do jornalista ao falar sobre o caso foi um bem vindo contraponto ao tumulto em frente ao casarão na mesma quarta-feira, aquecido pela transmissão ao vivo do apresentador José Luiz Datena e da influencer Luisa Mell em meio a um vasto aparato policial (seis carros de polícia, dois helicópteros, bombeiros) e uma horda de curiosos - de compadecidos com a sorte da escravagista de Higienópolis, como o próprio Datena, a linchadores em potencial.

Um desfecho incontrolável e mesmo irônico do trabalho jornalístico de Chico Felitti, que jamais cedeu ao sensacionalismo ao jogar luz sobre essa história tão brasileira, que tinha que ser contada. Se foi o casarão em ruínas com uma misteriosa habitante que atraiu a curiosidade do jornalista - o que se sabe ao ouvir o podcast, narrado na ordem cronológica da investigação -, assim que a identidade e a condição de fugitiva da Justiça de Margarida Bonetti são por ele descobertas, a personagem excêntrica cede o protagonismo da série ao crime cometido.

Não se diz sobre Margarida mais do que o necessário para falar de seu envolvimento com a escravização de uma mulher pobre e negra por um casal de brasileiros nos Estados Unidos, o que foi apurado pelo jornalista com documentos e fontes. Nem o filho do casal, que era criança na época dos fatos, aparece na série: só o marido, Renê, que cumpriu pena de prisão pelo crime nos Estados Unidos, foi procurado (e não quis falar). A insistência do repórter em entrevistar Margarida (o que ele acaba conseguindo e ocupa todo o sétimo episódio da série) demonstra o esforço em dar espaço para sua versão dos fatos, o que é louvável. Quanto à crítica de que ele estaria expondo uma doente mental, fico com a explicação do próprio Chico: não há nenhum laudo médico que afirme essa condição e jornalistas não são psicólogos e nem psiquiatras para fazer essa avaliação.

Merece ainda mais aplausos o cuidado do jornalista em preservar a identidade e a privacidade da vítima, aquela a quem Margarida define na entrevista como “uma criança grande” (!!!), passando por cima do fato de que a “amiga de infância”, como ela diz, não quer ouvir falar dela até hoje. Afinal, Margarida nunca foi punida pelo que fez e a empregada trabalhou sem remuneração por décadas, sendo constantemente agredida e humilhada e relegada a um porão sem documentos, dinheiro, remédios ou mesmo comida suficiente enquanto um tumor crescia assustadoramente em sua barriga. Um dos trechos mais emocionantes da série é a conversa da mulher escravizada com Felitti, em que as perguntas ficam em primeiro plano e se ouve de longe o relato da vítima, ainda mais comovente pela delicadeza do artifício do jornalista para protegê-la.

Chico Felitti orgulha os colegas deste pedregoso ofício de convencer as pessoas a contarem suas histórias, mesmo que elas não queiram, pela importância que têm para a sociedade. Não é fácil se comportar com tanta transparência diante do público e das fontes, principalmente em relação à “vilã”, como ele fez. Também é digno de admiração o jeito envolvente de contar a história, atraindo um público para além dos defensores de direitos humanos, cada vez mais solitários no país de Bolsonaro. Não há dúvida de que essa capacidade de cativar os ouvintes, sem jamais ultrapassar os limites da ética profissional nem menosprezar a gravidade do caso, contribuiu viralizar a denúncias e apontar as vítimas recorrentes do trabalho escravo contemporâneo: mulheres negras “quase da família”, fragilizadas pelo racismo, machismo e o abandono do Estado. Muito obrigada, Chico, por essa aula prática de jornalismo que só nos faz renovar a fé na profissão.


Marina Amaral. Diretora Executiva da Agência Pública

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