Burrice e preconceito

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Dias atrás, soube de um parente que pegou covid. O primo distante, com quem tive contato na infância e parte da adolescência, ficou mais de um mês hospitalizado, 40 dias na UTI, foi intubado, passou por traqueostomia, entrou em coma. Hoje, quase um ano após sair do hospital, ainda tem sequelas. Médico, formado em faculdade de renome, afirma que foi salvo pela cloroquina.

Um amigo, este mais próximo, andou sumido. Semana passada mandei mensagem o convidando para assistir a uma partida de futebol. Ele, em resposta estranhamente protocolar, desconversou. Me lembrei, então, da nossa última conversa por telefone, quando me queixei dos efeitos da quarta dose da vacina contra covid. “Melhor um dia ruim do que a chance de não ter mais dias pela frente”, brinquei, ao que ele encerrou o papo de forma abrupta, dando desculpa esfarrapada.

Será que dei mancada? Não creio. Anos atrás, antes da pandemia, esse mesmo amigo me revelou que passara a frequentar uma tal igreja. As vacinas, por inocularem o “mal” no corpo, não poderiam ser boa coisa, segundo sua doutrina. “Deixa de ser burro”, respondi. À época, não dei importância e mudei de assunto. Hoje, estou certo de que o amigo não se vacinou contra a covid. Conheço-o há décadas e sei que a mensagem protocolar indica sua vergonha de admitir a fraqueza imunológica.

Estudamos no mesmo colégio, ambos passamos em Biologia. Não faltamos à aula sobre o surto de varíola no início do século passado. Na ocasião, o professor explicou como a vacina praticamente erradicou a doença. Contou, também, a origem de Higienópolis, na capital paulista: a varíola atingiu fortemente o bairro da Bela Vista. Como a doença faz a bexiga inchar, o local ficou conhecido como “Bixiga”. Para fugir da varíola, afastando-se dos vizinhos contaminados, industriais, comerciantes e operários mais abastados subiram o morro e construíram suas casas nas terras altas, em região nomeada Higienópolis.

O surto isolacionista ainda se faz presente em parte dos moradores do bairro, haja vista o impedimento, há alguns anos, da construção de estação de metrô na principal avenida da região. Mas isso é outra história.
Será? É difícil enxergar que as pessoas circulam pelos mesmos lugares, frequentam as mesmas esquinas? Não, certamente. Duro é admitir isso. E é inadmissível que pessoas com acesso a bons colégios, faculdades, tapem os olhos ao conhecimento que lhes foi proporcionado. A pessoa é formada pela faculdade “x”? O curso, os livros, as discussões com os colegas a formaram como profissional ou cidadão? Ou ela já nasceu formada no preconceito e só usa o que decorou para se dar bem na vida?

Se dar bem na vida. Muitos não a têm mais. Outros, como o primo a quem desejo ótima recuperação, tem de lidar com os efeitos de uma doença que já matou milhões, alguns pela recusa à ciência. Pela ignorância. Recusamos nossa inteligência.

O que é inteligência? Está aí uma das perguntas mais importantes no mundo atual. Se descobrirmos a resposta, será o fim dos nossos problemas? A tal resposta está longe de ser encontrada. O que torna o ser humano mais inteligente do que a barata, por exemplo? Se a barata está aqui faz centenas de milhões de anos e nós há uns pouco milênios? Se inteligência tem relação com a capacidade de sobrevivência da espécie, estamos na rabeira da existência. Basta ver o que fizemos com o mundo nos últimos séculos: quanto mais lixo produzimos, mais ajudamos as baratas.

Talvez uma definição de inteligência possa ser vislumbrada a partir do seu oposto. Assim, a pergunta a ser feita é: O que é burrice? Não precisa ser gênio, não é imperativo formar Einstens para concluir, posto que muitos não se conformam em ter de conviver com semelhantes nos bairros onde moram, ou admitem os benefícios do conhecimento científico, que burrice está ligada a preconceito. O problema que surge dessa conclusão é preocupante. Pois como diria outro amigo, este vacinado com as quatro doses da vacina, a burrice não tem limites.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.

 

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