Algumas vidas valem mais do que outras?

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Foi de cortar o coração ver imagens das vítimas do atentado no Texas, no portal do “The New York Times” de quinta-feira passada. A relação de nomes acompanhava fotos de cada uma das pessoas mortas no triste atentado ocorrido no dia 24, quando um atirador matou dezenove crianças e dois adultos ao invadir uma escola na cidade de Uvalde. Autoridades norte-americanas informam que o assassino, de 18 anos, comprou duas armas de fogo e 375 projéteis, dias depois do seu aniversário.

Atentados como esse acontecem com alguma frequência nos Estados Unidos, onde há 120,5 armas para cada 100 habitantes. Isso mesmo, mais de uma arma por cidadão. Qualquer pessoa pode planejar um assassinato. Basta entrar numa loja especializada, se identificar, comprar o que deseja e esperar o momento certo. Em segundo na lista vem o Canadá, com 34,7 armas para cada 100 pessoas, de acordo com o "Graphic News” e “Small Arms Survey”.

Pode-se questionar o motivo de haver mais atentados naquele país do que em outros lugares. O problema é que lá há mais loucos do que, por exemplo, no Brasil? É evidente que a principal questão está na facilidade para comprar armas e munições. E ainda tem gente, por aqui, que defende a liberação de venda desse tipo de equipamento a qualquer cidadão. Para esses, cabe a pergunta: Vocês têm filhos em idade escolar? Vocês, seus familiares, amigos, frequentam cinemas, bares ou qualquer local que possa ser invadido por um indivíduo com intenções homicidas? A resposta é não, ao que parece.

A comovente homenagem do jornal norte-americano às vítimas é digna de registro. Mas e no Brasil? No mesmo dia 24, uma operação policial na Vila Cruzeiro deixou ao menos 23 mortos, até o momento em que escrevo este artigo. A PM do Rio, em nota, afirma que “criminosos começaram a fazer disparos de arma de fogo na parte alta da comunidade”, o que justificaria a reação policial. A nota também faz referência à quantidade de pistolas, fuzis e granadas apreendidas, além de drogas. Uma operação bem-sucedida, sob o ponto de vista do Estado. O comunicado oficial ainda cita uma pessoa ferida e que posteriormente veio a óbito em comunidade fora da área de operação. Uma morte de “inocente”, perto da grandiosa ação policial. Parece aceitável?

No excelente livro “Vala de Perus, uma biografia” (Alameda Casa Editorial, 2020), Camilo Vannuchi escreve sobre a origem da vala clandestina descoberta no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, na capital paulista, bem como a luta de familiares e amigos para identificar os mortos. Cavada às escondidas na década de 70, quando o país vivia a época da ditadura, a vala abrigava 1049 ossadas. Dessas, estima-se que 42 são de pessoas que vieram a óbito em decorrência de torturas aplicadas por integrantes do regime militar. E as demais ossadas?

O autor relata, em investigação conduzida por Caco Barcellos que levaria à descoberta da vala em 1990, que em mais da metade dos laudos do IML de São Paulo escolhidos pelo jornalista para uma análise mais acurada “as vítimas eram pretas ou pardas e seus corpos tinham sido resgatados em hospitais da periferia... Os corpos das vítimas da PM eram quase sempre enterrados às pressas, como indigentes, mesmo que portassem documento na ocasião de sua morte.” Até 2020, quando o livro foi publicado, apenas 5 corpos haviam sido identificados. Não é improvável que parte dos “corpos enterrados às pressas”, aos quais se refere Vannuchi, tenham sido levados ao Cemitério Dom Bosco, enterrados, exumados e posteriormente reinumados na vala. Pois, como escreve o autor, “o desaparecimento forçado surge como um dispositivo capaz de afastar a hipótese, mesmo que remota, de punição: se não há corpo, não há crime”.

Quem são os mortos na ação da PM na Vila Cruzeiro? Todos eles? São todos criminosos e, portanto, sob o ponto de vista do Estado, mereceram o fim que tiveram? Porque talvez suas famílias não sejam abastadas financeiramente, merecem o esquecimento da sociedade? Sua memória coberta por terra como numa vala clandestina? Vai ficar por isso mesmo?

Um país sem memória é um país fraco, injusto, clandestino. A pátria pode estar armada, mas escancara sua covardia quando não dá condições às famílias dos mortos de buscar a verdade sobre a chacina.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.

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