'Tecendo o amanhã' ou 'Em busca do Brasil do Bem'

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Conto a história, suprimindo os nomes. Devia ser por volta de 21h de 30 de março de 1964. Nós estávamos apreensivos com as notícias cada vez mais tensas sobre a possível eclosão de uma guerra civil. Na Rua Farani, sede do governo do então Estado da Guanabara, enormes caminhões de lixo bloqueavam a entrada de veículos pela Praia de Botafogo. Outros bloqueavam algumas transversais. Havia no ar uma boataria de que os fuzileiros navais atacariam o Palácio, onde se mantinham acantonados e armados o Governador e uma centena de correligionários.

Morávamos , nesta época, na Tijuca, na rua Santa Amélia, numa casa simpática de altos e baixos, como então se dizia, bem em frente à mansão dos Peixoto de Castro, uma das maiores fortunas da época. Rua deserta. De repente, para em frente a nossa casa um Jipão do Exército e dele salta um militar fardado em trajes de combate, armado de um quarenta e cinco na cintura, coturnos lustrados, capacete de aço com três estrelas a assinalar a chegada de um Coronel. Meu cunhado, médico, abriu a porta e para nosso alívio nos deparamos com um querido amigo da família, quase um filho aos olhos da mãe de meu cunhado, sua madrinha e amiga de infância da mãe de sangue do coronel.

A mim, aos 23 anos e me preparando para o vestibular ao Instituto Rio-Branco, depois de desistir da medicina, o coronel fez apenas um gesto rápido de saudação, longe do hábito sempre sorridente de me testar sobre rios e montanhas do Brasil. Beijou minha irmã, meio inoportuna a oferecer-lhe um café. Foi direto à cabeceira da mesa onde a madrinha ainda mal desviara o olhar da televisão e encarava o visitante surpresa. “Só tenho três minutos. Vim pedir-lhe a benção”. A madrinha esticou-lhe a mão a ser beijada. Depois se levantou e sua cabeça branca roçava a altura do pulsar do coração do afilhado. Para mim, da distância em que estava, ela me parecia um gigante. Beijou-lhe o rosto. Olhou-o firme nos olhos e apenas disse “ Juízo, hem”!

Era impressionante a semelhança dela com a imagem que fazia de Ana Terra, das maiores figuras femininas de “O Tempo e o Vento” de Érico Veríssimo, um dos clássicos da literatura brasileira contemporânea.

Hoje é dia das mães. E me pergunto quantas mães, quantas Anas Terra não estarão a repetir a seus marmanjos a mesma ordem, o mesmo comando: “Juízo, hem!”. Pois, estamos desajuizados, profundamente tresloucados dançando o minueto da morte anunciada num libreto escrito com ódio e irracionalidade.

Ultrapassamos em muito os limites do debate político. Evadimos o debate de ideias e projetos em favor da reconstrução de nossa economia e nos acusamos uns aos outros de filhos de inomináveis mães. Não há apenas desvios de função, há desvios de caráter.

Não vou me alongar sobre razões. Não é o momento. Pior ainda, ninguém parece interessado em conhecer nada que não seja a estupidez sancionada pelo ideólogo de turno . Não há diálogo, sobram acusações. Peço porém me concedam a graça de um parágrafo.

Permito-me informar que o neoliberalismo morreu, mas a notícia ainda não chegou ao Ministério da Economia brasileiro e infelizmente também a alguns setores do empresariado local. Permito-me, ainda, recordar que a politica econômica inaugurada nos anos noventa, de defesa da liberdade “desregulada" do mercado, também foi abandonada por países que anteriormente fizeram deste mito uma espécie de “Powerpoint sacrossanto." Finalmente, sugiro a leitura ou releitura do relatório final do Inquérito sobre as causas da crise financeira mundial de 2008, tal como publicado pelo Senado dos Estados Unidos da América.

Não há, que eu conheça, livro ou estudo mais claro e eloquente sobre a cupidez e irresponsabilidade de grandes empresas transnacionais e até de agentes governamentais dos Estados Unidos. Leitura obrigatória para quem queira ter uma posição bem informada sobre os efeitos positivos, mas também sobre os efeitos perversos da globalização financeira. E sobre o caos em que mergulhamos, “Os Engenheiros do Caos" , de Giuliano Da Empoli, descreve didaticamente a trajetória do moralismo lavajatista ao descrédito de Berlusconni.

Se após a leitura deste material, você ainda estiver convencido ser o maior problema eleitoral brasileiro a hipotética fraudulenta contagem de votos das urnas eletrônicas, sugiro revisar a própria cachola e verificar se, por acaso, algum parafuso soltou com o tranco.

Uma palavra final aos que não compreendem a importância de, nesta hora, mais do que nunca ,“ter juízo” ser a expressão a recordar a responsabilidade de civis e sobretudo de militares diante da integridade territorial e a soberania política de nosso país.

Olhe ao redor de você e veja o privilégio com que fomos contemplados pela natureza e pelo trabalho de nosso povo. Veja a Amazonia que estamos destruindo. Veja a riqueza do Petróleo em nosso mar, veja a nossa matriz energética. Veja a cara de nosso Povo. Tudo isto provoca cobiça de chacais. E a cafajestice semi-letrada é o novo passo no salão dos passos perdidos.

E agora, pense bem, e já disse isto em artigo anterior: não há a menor segurança de que, dado o primeiro solavanco de um conflito nacional no Brasil, tenhamos condições de evitar intrusões ou intervenções , ainda que sob a capa de “amigáveis”, de tropas regulares ou mercenárias- narcotráfico inclusive- estrangeiras a estimular ou provocar uma “reconfiguração” do espaço territorial brasileiro.
Não há inocentes nesta aventura, nem ideologias que justifiquem este risco. Por muito menos, o Comandante do Estado-Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos da America pediu publicamente desculpas ao povo americano por ter sido levado por Trump a dar a impressão de que de alguma forma os militares americanos se associavam a um golpe de Estado.

Nossa responsabilidade transcende nossa geração e se prolonga por tempo indeterminado de turbulências e perda de riqueza. Correr este risco em nome de falsas-verdades e novas mitomanias será simplesmente um crime de Lesa-Pátria. Um escárnio ao bicentenário de nossa Independência. Uma ressoante gargalhada debochada e festiva na caverna dos Ali-Babás de hoje, cujos nomes e caras sequer conhecemos.

Pensem bem: Juízo.

Feliz dia das mães.

 

 

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Em Tempo: “ Tecendo a manhã” é um belo poema de João Cabral de Melo Neto. Em minha página no Facebook, postei um vídeo em que Naiara Marques o recita e onde você poderá ler na íntegra toda a riqueza semântica e simbólica do poema. A pertinência do poema nos tempos que correm é ostensiva.

2. Os Engenheiro do Caos ; Giuliano Da Empoli; editora Vestigio .

3. O tempo e o vento merece ser relido. O primeiro volume “ O Continente “ é uma obra-prima.

4. The financial crisis inquiry report. Official Government Edition. Disponível aqui.

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