Memória ilimitada

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Ontem de manhã, ao ligar o computador e acessar o e-mail, fui surpreendido com a informação de que minha capacidade de armazenamento estava chegando no limite. Ao atingir 100%, algumas ações poderiam deixar de funcionar. Preocupado, a tensão pela iminente restrição ao universo virtual provocou reações bem tangíveis, como palpitações e um calafrio na espinha. Sem entender o motivo, me lembrei do primeiro episódio da série Black Mirror, em que pessoas são avaliadas pelas notas dadas por outros nas redes sociais. Quanto mais baixa a nota, mais excluído o sujeito. Em breve, me tornaria um sub-humano no século XXI.

Quais ações deixariam de funcionar? Andei tão descuidado assim? Vai saber se o problema, em vez do e-mail, não é a caixa craniana lotada? Bem que minha esposa diz que estou me esquecendo das coisas. Pelo sim, pelo não, chegou a hora de jogar no lixo todo registro de experiências supérfluas. Talvez me sinta melhor depois desta hercúlea tarefa: eliminar memórias desnecessárias.

Comecei esquentando os motores do cursor deletando e-mails antigos. E que sensação boa, a de eliminar os restos do passado. Ao deletar cobranças vencidas há mais de 5 anos, percebi como me incomodavam. Mantive uma ou outra vaidade, um texto bonito, comprovantes de pagamento, registros de que sou uma pessoa honrada, e os comunicados recentes. Deixei na berlinda do dispensável uns poucos spans, pequenos vícios oportunos a um ser humano comum. Voltarei a eles no futuro.

Satisfeito e lisonjeado, cliquei com orgulho no botão que me mostraria a nova capacidade, uma área virtual vazia de passados e repleta de possibilidades. Mas, que nada. Memórias antigas não valem mais do que 2%. Minha capacidade de acumular registros corria um sério risco. Ainda me encontrava na faixa vermelha do Google.

Entendi que deveria encarar a parte mais difícil. Dispensar textos é fácil. Duro é cortar a carne: o espaço no mundo de hoje pertence às imagens. Mais de 70%. Como deletar aquela foto do chopp com os amigos? E a do gato no muro ao entardecer, uma pérola da fotografia moderna? Sem falar nas mais de 40 fotos do para-choques riscado, resultado de um engavetamento antes da pandemia. Ainda pode ser útil, nunca se sabe.

Num dado momento, me deparei olhando para imagens de restaurantes. Pratos suculentos, coloridos, fotografias tiradas com a câmera de um celular moderno, seus pixels mais saborosos do que a feijoada servida, um pouco fria e nem tão gostosa assim. Mas isso a gente faz questão de se esquecer. É muito fácil eliminar textos longos, registros escritos que podem provocar alguma reflexão, ou mesmo cartas a um colega. Nada disso pesa tanto quanto a figura de uma refeição, posts de subcelebridades nas Maldivas ou Dubai ou de amigos com quem estivemos e que possam curtir nossas fotos, muitos deles nem tão amigos assim.

Vencido pelo cansaço, cedi ao Google. Por cerca de R$ 6,00 ao mês, aumento exponencialmente a capacidade de armazenamento. Uma pechincha. Agora, posso tirar a foto que eu quiser. Minha memória está nas nuvens. Seis reais por mês, pouco mais de setenta por ano. Em dez anos... Vezes o número de usuários e seus desejos ilimitados...

Não importa. Eu, refém do Google – ou do desejo – tenho memória ilimitada, terceirizada. Numa época cada vez mais tecnológica e de textos curtos, em breve não serão necessárias, por exemplo, as poucas centenas de caracteres do Twitter. Uma ou duas frases, é o que basta. Bom para Elon Musk e sua turma, em um planeta onde a balança pende para o lado do desejo imediato. Fica fácil, assim, defender o que o bilionário chama de liberdade de expressão. Ou liberdade de impressão. Sua conta bancária agradece.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.

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