Por um 2022 com esperança

.

Chegamos no final do ano que insiste em não terminar. Enquanto a leitora ou o leitor não vir imagens das comemorações da virada na Austrália, a hipótese de que o mundo pode acabar em 2021 não deve ser descartada.

Não bastassem as cerca de 620 mil mortes por covid que batemos em dezembro, o país se vê diante de 13,5 milhões de pessoas desempregadas. Mais da metade da população se encontra em situação de insegurança alimentar (116,8 milhões, segundo a última pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Rede Penssan) e, desses, 19,1 milhões passam fome. Em comparação com o levantamento de 2017-2018, realizado pelo mesmo instituto, o número de brasileiros sem comida suficiente cresceu quase 9 milhões.

É pouco? O Ibovespa acumulou perda de 12,5%, primeira queda nos últimos 6 anos, puxada pelo setor de varejo, tradicional empregador. Fechamos o ano com o boicote do Ministério da Saúde à vacinação infantil, as chuvas que deixaram dezenas de mortos e milhares de desabrigados na Bahia, surto de gripe e onde está o Presidente da República? Brincando no parquinho.

O mandatário anda de jet ski, pesca na lancha, circula em aglomerações sem máscara próximo a crianças (e adultos?) não vacinadas e, no parque Beto Carrero, veste uniforme de carrinho de brinquedo, pega no volante de um automóvel de verdade e dá show de derrapagens. Piada pronta? Seria, se seu governo não tivesse, por exemplo, recusado ajuda que nossos vizinhos argentinos ofereceram à Bahia. O trecho mais sem graça dessa piada macabra talvez seja o apoio de 1 em 5 brasileiros a esse governo inconsequente.

A criança mimada e irresponsável que derrapa em show de acrobacias automobilísticas é a mesma que dirige o país. E ri, o sujeito. Feito menino que leva zero numa prova, tira sarro dos professores e mostra a nota aos amigos, exibindo seu troféu.

Dá para botar a criança de castigo? Difícil, antes de 2023, quando espero que o país tenha maturidade para excluir do Palácio do Planalto esse infante incendiário e perverso. Espero, ainda, que antes das eleições as instituições democráticas achem uma brecha para o impeachment deste Nero tropical.

O ano que vem promete ser difícil. O bom senso sugere que estejamos preparados para conflitos, muitas vezes plantados nesse berço de infantilidades a que se dá o nome de redes sociais. Começaremos o ano ainda com pandemia, surto de gripe, mais boicotes governamentais, falta de verba para auxílio a desabrigados e alta taxa de desemprego. Nada de novo. Mas, de olhos abertos às derrapagens planaltinas, poderemos nos proteger de parte das dificuldades que se apresentarão. Ao contrário do menino alucinado que tapa os olhos para os problemas do Brasil enquanto dá cavalo de pau no jet ski e encharca as instituições públicas com seus arroubos de perversidade. Espero que saia o quanto antes.

Espero porque, por mais que 2021 tenha tirado o oxigênio de muitos brasileiros, diluído vidas num caldo ácido de cloroquina e ivermectina, desalojado sonhos de casas próprias e escurecido pensamentos positivos, manter a esperança é uma forma de resistência. É isso que desejo às amigas leitoras e aos amigos leitores: um 2022 com esperança.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade.
Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Saiba mais