Vencendo pela palavra

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Há poucos dias, vejo um empregado do condomínio de classe média onde moro pedir ajuda pelo rádio a uma espécie de central: “Preciso de um colaborador aqui no setor para trocar lâmpadas queimadas”. Penso comigo mesmo: “Palavra estranha esta, colaborador. Com certeza, há cinco anos, ele requisitaria a presença de um empregado, de um funcionário. Ontem, leio num grupo de WhatsApp de moradores: “Campanha para o Natal dos colaboradores do condomínio”. Penso comigo mesmo: “Palavra estranha esta, colaborador. Há cinco anos, a campanha de Natal seria para os funcionários”.

Todavia, o estranhamento não para por aí. Você sabia que, nas grandes lojas de departamentos, o coitado do caixa passou agora a ser um associado? Quando eu soube, cheguei a me assustar: ontem, um simples empregado; hoje, sócio do patrão!?

Garanto a você que não trato aqui de um assunto menor, de uma bobagem sem importância.

Quando embustes como colaborador, associado ou qualquer outro eufemismo são empregados, passa a existir uma neutralização dos pesados embates envolvidos nas disputas entre capital e trabalho. Em outras palavras, encobre-se a realidade. O termo colaborador, por exemplo, suaviza asperezas que palavras como empregado, funcionário, operário, entre tantas outras, não conseguem esconder. Basta dizer que os entregadores de refeições e os motoristas de aplicativos, um pessoal sabidamente explorado ao limite, uns quase-escravos, são chamados por seus patrões exatamente assim: colaboradores. Ora, o que faz um colaborador? Colabora, claro. Ajuda. Doa-se feliz e gentilmente a uma tarefa. Ele não liga nem para horário nem para descanso. Se a remuneração é baixa, baixíssima, o que importa isso? Um colaborador não reclama, não se associa, não se sindicaliza, não luta por direitos. Quando ouvimos a palavra colaboração, imediatamente nos vem à mente uma doação, uma sensação de delicadeza que nos faz até – quem sabe? - imaginar um ato de amor.

Com o vocábulo associado chega a ocorrer algo pior. Com ele, por decreto, determina-se o fim de qualquer embate entre capital e trabalho, entre patrão e empregado. Ou, mais claramente até: os embates chegam a um fim, pois um dos contendores, o empregado, deixa de existir. Agora, portanto, só há patrões. Num passe de mágica, o caixa, ontem um empregado subalterno, torna-se hoje sócio do grande capital. Sugere-se assim que todos estão no mesmo patamar. Greve? Para quê? Leis trabalhistas? Para quê? Coisas menores, como salário, férias, aposentadoria, tudo isso fica para trás, a gente vê depois. Ou melhor, nem precisa ver depois, não faria sentido. Sócios não vivem de salários minguados, mas sim de robustos dividendos.

Se você está pensando que eu exagero, que isso são apenas rótulos, que ninguém deixará de enxergar a realidade dura por trás das palavras, relembro a história dos cigarros. Três décadas depois de proibida a publicidade, a imagem mais forte que os cigarros me trazem não são as diversas doenças, o câncer, o mau hálito e tudo o mais que o Ministério da Saúde adverte em cada maço, mas sim os carrões, os iates, os veleiros e as mulheres gostosonas com os quais a publicidade da indústria do tabaco nos iludia diariamente.

Outro bom exemplo está ligado diretamente ao nosso assunto. Paulo Galo, o brilhante e combativo líder dos entregadores paulistas, relata que, nas suas tentativas de mobilizar seus companheiros para um embate contra os poderosos empresários dos aplicativos, costumava ouvir de seus colegas algo assim: “Paralisação? De jeito nenhum! Tá pensando que eu sou o quê? Um morto de fome? ”.

Contudo, se ainda assim você não está convencido, sugiro enfaticamente que procure assistir ao filme “Você não estava aqui”, de Ken Loach. E depois me diga se colaboração é a melhor palavra para caracterizar a relação entre patrão e empregado no mundo contemporâneo.

Francisco José Ferraro Genu. Economista pela UFRJ. Auditor Fiscal da Receita Estadual

 

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