Ações espinhosas

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Foi em meados de agosto, num domingo insosso, meio nublado meio ensolarado, que desci à rua onde feirantes haviam montado suas tendas. Era cedo, as melhores frutas lotavam os balcões. Batatas, berinjelas e tomates se amontanhavam e se ouvia o grito promocional atrás da cordilheira de alimentos. A brisa fresca no rosto pedia um café da manhã saudável, mas a fome ainda não era grande. Pois em vez de ficar na cama até tarde e ser bombardeado por “fake news” nos grupos de WhatsApp, aproveitei o celular desligado para caminhar.

Andei até o final da rua. A última barraca vendia plantas, me interessei por um cacto. Pequeno, seu vaso cabia na palma da mão. Cresce muito, questionei? Não, cabe em qualquer canto. E o espinho, machuca? Pergunta retórica, de quem quer comprar. Esbocei ainda uma frágil tentativa de negociação, dizendo que o cachorro não poderia se ferir. Como resposta, ouvi que a planta não é venenosa. O bom humor debochado do vendedor me fez pagar e sair logo. Assim, preservei a dignidade restante de um cliente avesso a transações num domingo de manhã.

Na volta, orgulhoso pela companhia espinhosa que colocaria na prateleira acima do computador, parei na barraca de laranja e comprei meia dúzia. A fome já se insinuava e a imagem do misto quente com suco me fez esquecer de que a planta poderia virar um monstrinho.

Em casa, o espaço reservado ao cacto era menor do que imaginei. Os poucos centímetros entre as prateleiras não permitiam ao novo ser arvorar-se onde estavam as páginas de literatura russa, à direita, ou as folhas desgastadas dos gibis, no lado oposto. Crescer na vertical tampouco era uma opção. Torci para o vendedor ter dito a verdade, recusando-me a dar um Google para saber o tamanho máximo da espécie, se é venenosa. Seria preocupante para o cachorro. A planta não deveria crescer.

Mas a natureza prega peças. Seres vivos crescem. E ocupam espaços. Descobri que o homem da tenda de plantas pode ter omitido parte da verdade. Pequenos braços pipocaram dos tentáculos do cacto. Brotos de “fake news” arranharam Anna Karenina e já maculam os poucos cabelos do Cebolinha.

Dias atrás, quando o WhaatsApp saiu do ar e fomos privados por algumas horas de receber “fake news”, pensei no homem da tenda e no espécime que julga minha escrivaninha ser um Saara só dele. Senti um certo alívio. Um pouco vingado, até. Mentiras espinhosas nos deixariam em paz, ao menos enquanto durasse a falha técnica das redes. Alguns dizem que o dono do Facebook apenas tropeçou no fio do servidor e deixou o mundo órfão de verdades relativas. Para outros, foi de propósito: Tá vendo? Quem disse que o mundo não precisa de uma boa mentirinha?

Não faço ideia se foi proposital ou acidental. Talvez saibamos daqui a um tempo, embora fatos reais tenham pouca importância no universo das bolsas de valores. A feira de notícias falsas costuma produzir frutos bastante lucrativos a uns poucos e importantes operadores do mercado de balcão. Mas a queda momentânea das redes revelou certa carência por verdades comprováveis, por mais pontiagudas que se apresentem. Confiar no que se lê pode ser libertador, além de poupar tempo.

De verdade absoluta, o cacto, seus espinhos e o curso da natureza. O tempo trabalha a favor da planta, que já não cabe na prateleira. Enquanto isso, a feira segue. Aqui na rua e nos balcões de Nova Iorque, onde ações da companhia de redes sociais são negociadas. Aqui, ao menos, temos a xepa. Lá, acho difícil que o preço não se recupere, mas vou fazer minha parte: domingo, deixo o Anna Karenina na mesa de cabeceira. Na prateleira, o vegetal pontiagudo terá de negociar com o celular desligado.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.

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