A morte de Kathlen Romeu é mais um escândalo

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Indignação. Revolta. Raiva. Tristeza. Sentimentos que nos tomam de assalto quando nos deparamos com notícias como a morte de Kathlen Romeu, 24 anos, negra, grávida de quatro meses. Grávida de quatro meses. Mulher. Negra. Grávida. Morta a tiros em uma operação policial no Complexo do Lins de Vasconcelos, no Rio de Janeiro. Morta a tiros em uma operação policial. Mais uma. Mais uma mulher morta. Mais uma morte negra em operação policial. A repetição das palavras é intencional. A repetição da violência de Estado é absurda. Os absurdos precisam ser denunciados. Repetidamente. Incessantemente.

A polícia faz uma operação em época de pandemia, época em que o Supremo Tribunal Federal determinou a restrição de operações policiais não urgentes em comunidades. Tempos em que mais de 470 mil pessoas morreram vítimas da Covid-19. E continuam morrendo. A maioria desses mortos, adivinhem, é de pessoas negras e pobres. Em meio a tudo isso, mais uma morte, mais uma mulher negra. Em uma comunidade do Rio de Janeiro. Kathlen estava grávida. Uma morte provocada pelo Estado, pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Um escândalo. Mais um. Até quando?

“Eu perdi minha neta de um jeito bárbaro. Perdi a minha neta e o meu bisneto”, disse a avó de Kathlen, que caminhava na rua com ela quando a neta foi atingida. E morta. E grávida. Aliás, o Instituto Fogo Cruzado avisa que o caso de Kathlen não é exceção. Segundo dados da entidade, desde 2017, 15 grávidas foram baleadas no Grande Rio. Oito vítimas morreram no local. Quatro, baleadas em ações policiais. Até quando?

“A mesma operação que tem constantemente na nossa área não tem na zona sul. Eu tirei a Kathlen de lá por causa da violência. Minha filha era a coisa mais especial da minha vida. Uma pessoa do bem, inteligente”, declarou o pai a jornalistas. A filha de Luciano Gonçalves tinha acabado de se formar na faculdade, era designer de interiores e estava comprando uma casa junto ao namorado Marcelo, pai do filho que morreu com ela. O filho que já tinha nome – Maya ou Zyon – e que não vai mais nascer. Até quando?

“Eu peço que respeitem a memória de Kath. Não despejem ódio porque ninguém merece isso. (...) Respeitem a dor da família. Principalmente da mãe da Kath, que foi obrigada a ler comentários de pessoas falando besteira”, escreveu o namorado, Marcelo Ramos, em uma rede social. A mãe perde a filha em meio a uma operação da Polícia Militar, força do Estado do Rio de Janeiro que deveria proteger uma mulher de 24 anos grávida, e, como se isso não bastasse, se depara com mensagens de ódio em meio a tanta dor. Não li essas mensagens e nem quero ler. Mas sei exatamente de onde vieram. Sei exatamente quem as pessoas que vomitaram ódio neste momento apoiam. E você também sabe. Até quando?

“Neném, já me sinto pronta para te receber, te amar, cuidar!!! Deus nos abençoe”, comemorou Kathlen em uma postagem nas redes sociais. Junto com o texto, uma foto de uma jovem linda, radiante, grávida. Negra. Que foi morta durante uma operação policial na comunidade de Lins de Vasconcelos, zona norte do Rio de Janeiro. Caminhava na rua com a avó, que pediu socorro aos gritos quando viu que um tiro atingira a neta. Foi levada para o hospital mas não resistiu. Até quando? Até quando?

Lidice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela USP, onde pesquisa o sofrimento psíquico da mulher. É pesquisadora do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social (LAPSO) da Universidade de São Paulo.