Em apoio aos radicais

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Semelhante ao barco de Robinson Crusoe, imaginado por Daniel Defoe, o Brasil vai batendo nos recifes, mas sobrevivendo a repetidas tempestades, mesmo que carente de timoneiros capazes de enxergar o porto seguro. Ainda assim, o país é capaz de reunir fôlego para colecionar esquisitices, uma das quais originária do Supremo Tribunal Federal, que decidiu incursionar corajosamente nas atribuições do Congresso, ordenando que ali se instalasse a CPI da Covid. Não satisfeito, foi além, garantindo a relatoria aos cuidados de Renan Calheiros, senador que há meses vivia recolhido em exílio voluntário, preocupado em escapar de holofotes incômodos. Depois, a corte dos togados expandiu os voos e foi bater à porta do Executivo, para determinar que realize um censo populacional. Interessante notar que, se as excentricidades regem as relações entre os poderes, e são fartos os hábitos exóticos, é quando o Supremo passa a mandar mais; exatamente na fase em que amarga desprestígio, totalmente desrespeitado pela sociedade. Quanto mais fraco, mais pode, mesmo à custa de produzir perplexidades. Ainda agora, os ministros preocupam-se em saber se o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, utilizou-se de recursos partidários nas redes sociais para dizer os horrores que tem atirado contra eles, rebaixados ao mais baixo nível de tratamento. Parece não interessar o que Jefferson dispara, mas saber de onde tira suas armas…

Se o Brasil de Crosoe encalhou de vez nas pedras, para tanto terão contribuído essas e outras invasões praticadas no terreno de responsabilidades tripartites. Cada um dos poderes se acha no direito de avançar sobre os outros, e, ignorando os limites instruídos pela Constituição, vão contribuindo, e muito, para fermentar o clima de radicalização que antecede a campanha eleitoral de 2022. De fato, os três poderes, em constante e agressiva desarmonia, animam os grupos e partidos políticos a não se contentar com diferenças de ideias e propósitos; pelo contrário, cada vez mais dispostos a digladiar com ferro e fogo.

O que resta muito ruim, porque o discurso de hostilidades e de ofensas também acaba condenando ao lixo as verdadeiras questões nacionais, que são muitas e aflitivas; questões que, desde já, vão se sacrificando no exercício demolidor de esquerda e direita, embora capazes de convergir em um ponto: ambas empenham-se em cassar do eleitor o direito de ter maiores opções em 2022, mas deixá-lo emparedado entre ser contra ou a favor.

Juízes, de que tribunais forem, executivos e legisladores, quaisquer que sejam os cargos em que se encontram, deviam saber que, ao mesmo tempo em que se armam, também armam patronos e promotores de tensões. Em suma, trabalham para impedir que o Brasil se liberte desses recifes onde suas quilhas têm encalhado.

Onde estão os sindicatos?

Foi-se o Primeiro de Maio, mas ficou no ar uma indagação. Onde estão os sindicatos e suas poderosas federações?, tão presentes e reivindicantes em tempos passados, e agora totalmente recolhidos. Omitiram-se na festa do Trabalho, num dia que sempre foi digno de celebração, para festejar, e, muito mais, para levantar queixas e reivindicações.

O que se viu no sábado, por todos os cantos, foram as antigas concentrações cedendo ruas e praças aos patrões que se bolsonarizaram, aos evangélicos e a inimigos das restrições sanitárias. São os novos atores de maio, já vestindo as cores com que começam a tingir o Brasil a caminho de um parto difícil, com as contrações e dores de uma eleição perigosamente radicalizada. Os que pensam diferentemente, recolhidos, fariam bem se não se contentassem em xingar o presidente, mas perceber que a direita atingiu bom nível de organização, e se revela eficiente para mobilizar o bolsonarismo. É um fato concreto para quem seja capaz de enxergar alguma coisa.

Dia sem os 14 milhões de desempregados ou empurrados para a informalidade, inseguros nas empresas grandes, médias e pequenas, que se arrastam à sombra de uma economia claudicante; e tudo isso somado ao universo da vida laboral passando por enormes transformações, onde a máquina e a tecnologia cada vez mais se disponibilizam para substituir a força e a inteligência humanas. Com a epidemia que grassa, também são incontáveis as atividades hibernadas em casa. Outro desafio.

E os sindicatos? Sumiram, quase morreram, asfixiados com o fim de um imposto paternal que os sustentava, mas que, se pôs fim a muitos abusos, também esvaziou recursos para a mobilização das categorias.

Como essas organizações pretendem - se é que pretendem – enfrentar as novas realidades que vão se impondo a todo vapor? Se for o caso de retomar antigas forças e renovar os ânimos, deviam começar fazendo o PT se penitenciar de ter estimulado a criação de variadas entidades de mesmas categorias de trabalhadores, o que acabou levando à concorrência entre elas. Os governos do partido não sabem o mal que fizeram, com o bem que quiseram fazer.

Foi esse universo de desafios que ficou no rastro de um Primeiro de Maio insosso, desanimado, embora colorido, sem trabalhadores nas ruas, além de desvirtuado por questões fora de lógica para a data, como o retrocesso do voto impresso e a ignomínia do apelo a uma intervenção militar.