O objeto oculto da servidão

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Toda frase de euforia de nosso Czar nos aprofunda a angústia da servidão. Já não há passe de mágica ou malabarismo verbal capaz de nos fazer esquecer o campo santo em que se tornou o Brasil. Convenhamos, o projeto totalitário resiste.

Nossos dias se arrastam entre tombos e quedas e nossa rotina se transforma na cruel contabilidade de nossa ruína. 400 mil mortos e a certeza de que amanhã outros de nós também se irão em nome de uma pérfida performance megalomaníaca, uma aventura regressiva de nossa cultura em direção ao ódio a nos dividir como nação e a nos transformar a todos em soldadinhos de chumbo de uma guerra de narcisos.

E ainda assim, há os que se dobram ao discurso do profeta de pastéis de vento e atraem sobre nossas cabeças, tristes e pesadas nuvens de uma mal disfarçada proposta de luta fratricida. Em nome de que?
Nossas florestas se tornam cenário de biopiratarias variadas. Nossa indústria se liquefaz a cada dia e nossos empresários se livram de seus ativos como de pragas. Nossas estatais, ainda que lucrativas e cobiçadas, são expostas à hasta pública como messalinas murchas ou putrefatas.

Nossas escolas públicas são condenadas por terem a ousadia de concorrer com boutiques do capitalismo selvagem, empenhadas em preparar hienas a se entre-devorarem no mercado financeiro das falcatruas e dos paraísos fiscais.

Nossa diplomacia se recupera a passos cautelosos da mais ridícula exposição de amadorismo jamais oferecida ”urbis et orbis“ por uma instituição sempre a honrar uma tradição de parceria construtiva, ainda que frequentemente crítica, nos foros internacionais e nas relações bilaterais com praticamente todos os países do Planeta, independente de suas ideologias, doutrinas e religiões.

Desde sempre, mais visivelmente desde os primeiros anos de nossa República, fizemos do Direito Internacional, do respeito à igualdade soberana dos Estados, da não-intervenção, pontos cardeais de nossa ação diplomática, o que sempre nos tornou ativos e altivos em nossa permanente luta pelo desenvolvimento social e econômico não só de nosso país, mas também dos que conosco sempre participaram de uma diplomacia a serviço da emancipação soberana dos Estados.

Sempre pautamos nossas relações diplomáticas pelo exemplo maior de Rio-Branco, que nos ensinou a importância de antes de tudo sermos brasileiros, orgulhosos de nossa extensão territorial, que muito deve à diplomacia, conscientes de nossas potencialidades e fraquezas decorrentes de nossa situação econômica e sobretudo realistas diante de fatos reiteradamente demonstrados pela história dos tempos de que, entre países, o véu da amizade apenas disfarça a imutável e fria luta de interesses.

E só colhemos dissabores e só nos tornamos ridículos quando em nome de ideologia ou religião nos desviamos dessa rota profissional e nos engajamos em supostas afinidades eletivas como as que vivenciamos faz pouco com o Trumpismo e a nova direita supremacista branca dos Estados Unidos da América. Episódio que hoje nos aliena de uma relação saudável com a talvez mais estimulante reestruturação capitalista iniciada por Biden, após o óbvio esgotamento do modelo neoliberal iniciado pela tríade Reagan-Thatcher-Friedman nos anos 80 do século passado.

E nosso Czar insiste nesta política retrógrada, no sentido amplo da palavra, apesar do grito de 450 mil mortos no Brasil. E do desespero de outros tantos, privados de conforto médico, a morrer nos corredores de hospitais. A ideologia cega. Como o ódio. E os dois são gêmeos univitelinos.

Então, repito. Luta fratricida em nome de que? Da configuração da rede de Estados-Párias como sugere Steve Bannon a que ingenuamente aderimos? Há sinais evidentes de repulsa crescente das sociedades democráticas às tentativas de associar o Brasil a movimentos autoritários, como se viu no Parlamento europeu.

Embora prematuro afirmar, tudo parece indicar que o Partido Democrata, nos Estados Unidos, finalmente se terá convencido de que o neoliberalismo poderá ampliar o desnível social e os movimentos sediciosos estimulados por Trump. Será interessante acompanhar os desdobramentos desta política inclusive nos foros internacionais, onde o Trumpismo também provocou mais cizânias do que consensos.

De qualquer forma, o Brasil terá que repensar sua política externa dos últimos anos nem que seja por puro pragmatismo e interesse comercial. Mas, o ideal seria refletir sobre os movimentos endógenos que nossa subserviência ao Trumpismo provocou no Brasil, inclusive no acirramento do preconceito racial, disfarçado no discurso público, mas evidente quando uma alta autoridade do país questiona a lisura do acesso de um filho de porteiro de edifício à Universidade.

A sociedade brasileira tem que encarar, em benefício de sua própria sobrevivência, as pulsões ocultas que a levam a misturar na sua “cordialidade” os tapinhas nas costas com a memória do chicote da servidão.

*Embaixador aposentado