Via-Crucis

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Neste Domingo de Páscoa, muitos, muitíssimos de nós, teremos à mesa o pão pelo diabo amassado. Nossas taças transbordam lágrimas pelos que não mais veremos, com quem não mais dividiremos cumplicidades e alegrias, nem teremos o abraço de carinho, o afago a nos impulsionar na aventura do dia a dia.

Antes do Domingo de Páscoa, atravessamos a amarga memória de nossa Via-Crucis nestes dois últimos anos. A par da pandemia, abate-se sobre nós a mais profunda crise da inteligência nacional e do mero bom-senso, ambos a nos impingir estilo de vida orquestrado pelos sentimentos mais toscos da escala cromática humana. Nestes dois anos, aprendemos a ser maus. Aprendemos a nos desamar. E vimos desenhar-se diante de nós nossos piores instintos, recalcados ou sublimados.

Porta-vozes da ignorância nos levam a ideologias a desembocar num cenário pré-bélico e tornam nosso cotidiano um duplo penar por lutarmos contra vírus invisíveis altamente letais e por termos de desviar-nos a cada passo de um estilo animalesco de viver, onde o deboche, a hipocrisia e a megalomania se mascaram de instrumentos civilizatórios acolitados pelas armas de fogo, pela violência e pelo despotismo. O Brasil está sem ar. Falta-nos oxigênio até mesmo como metáfora. Falta-nos ética. Pudor. Vergonha.

O Itamaraty, símbolo de orgulho nacional, nem mesmo às vésperas da segunda guerra mundial, em que o mundo civilizado foi varrido pela aparente invencibilidade do totalitarismo nazista e fascista, curvou sua espinha dorsal a ameaças ou chantagens.

Hoje, é uma casa mal-assombrada por ideologias pedestres em busca de polaridades ideológicas sem sequer se dar conta que neste jogo somos sempre os perdedores líquidos, reduzidos a fantoches de forças que sequer conhecemos mas que julgamos capazes de controlar por simplesmente servir.

Desde as primeiras frases do discurso de posse do ex-chanceler, já se via a dimensão da ideologia mitificadora e mistificadora a levar-nos por caminhos de uma dependência tão ou mais totalitária quanto a que se podia vislumbrar nos ditos e não ditos dos jovens pensadores de um novo mundo sonhado para nosso país e para a humanidade.

A presunção com que se jogava aos ventos de Brasilia a condenação de uma política externa tangenciava já o irrealismo quando não o delírio. A defesa dos métodos e ideias de Donald Trump nos levaria a passos impróprios aos olhos do mundo num misto de subserviência, mas também de amadorismo e infantilidade de adolescentes, filhotes de papai-rico a exceder velocidades estrada afora com suas “baratinhas" importadas. Indiferentes a que, na tragédia da trombada, é o Brasil quem vai para o crematório.

A Democracia e o Estado de Direito foram os primeiros a se ressentir dessas gincanas internacionais, desses circuitos de Monte Carlo onde o narcisismo e o exibicionismo se confundiam nas curvas do destino a que chegaram: desrespeitados, ignorados, e classificados como “playboys” de pré- ditaduras de empórios comerciais sugados docilmente por metrópoles sagazes. Nossa Diplomacia, em dois anos, regrediu séculos de história e inteligência. Por que diabos nos aliarmos a um escroque como Steve Bannon e vincular o Brasil a um projeto de extrema-direita racista? Servidor do Estado sabe distinguir capim de estrume. Até pelo penteado.

Nosso servilismo a Donald Trump - que registro não é culpa apenas dos “playboys” - não nos rendeu sequer consideração. Dois ou três tapinhas nas costas foram suficientes para afagar nosso primarismo abjeto como se fossemos convivas da mesma mesa e do mesmo copo. Triste reconhecer que somos objeto não só de mofa e desprezo, mas sobretudo de chacotas, de piadas de alcova.

E neste trote de cavalo de parada, deixamos um rastro de dissidências a tal ponto que, quando bateu a Peste no Brasil, não fomos capazes de articular um mínimo de solidariedade num momento em que a humanidade se via diante de um inimigo impiedoso. Teríamos tido condições políticas - não fosse a arrogância e o pedantismo com que se conduziram nossos maiores - de promover um movimento internacional de peso em torno da distribuição e produção de vacinas .

Mas, procedemos como bons escoteiros de Trump. Nos aliamos aos americanos na OMC contra a maioria dos países em desenvolvimento numa hora de buscar soluções para o problema da escassez e do monopólio. Nos associamos aos interesses comerciais da indústria farmacêutica e não batemos um bumbo sequer em defesa dos milhões de seres humanos a morrer mundo afora. Aliás, no Brasil, há quem menospreze a vacina e, num reflexo incontido de ignorância, chegue a temê-la como força invasiva em nossas mentes.

Não invejo meus colegas que de uma forma ou de outra estiveram de alguma forma diretamente enfronhados nessas frustrações diplomáticas. Assim como compreendo, mas lamento, que alguns de nossos melhores conhecedores do assunto tenham aceitado sem vomitar os textos de propriedade intelectual, de compras governamentais, de serviços e solução de controvérsias inseridos no Acordo União Europeia-Mercosul em que cedemos posições historicamente defendidas pelos governos brasileiros.

Neste caso, sei muito bem que o impulso derrotista vem de outra alcateia, tão mítica e arrogante quanto a do ex-chanceler, mas também conduzida por grande mistificador e sequer com a desculpa da juventude a ajudá-lo. Cabra da Peste de raiz. Usurpador da economia do país, ficará na história como síndico de nossa massa falida, corretor da venda de nossas estatais, alienado das injustiças sociais, avesso à educação e saúde públicas.

E outros exemplos poderia citar. Como a nossa política de meio ambiente que o Itamaraty tão honrosamente reconstruiu para vê-la agora incinerada por interesses sequer explicitáveis.
A nossa política com o Mercosul, desfigurada por razões mesquinhas alienando amizades longamente cultivadas e responsáveis por termos daqui extirpado a praga da hostilidade Argentina-Brasil. O estranhamento entre o Brasil e nossos vizinhos do Cone Sul será talvez o dano maior a nossa geopolítica. Só mesmo o Belzebu em dia de carraspana ousaria fazê-lo.

E de tombo em tombo aqui estamos neste dia da Páscoa, no país da Via-Crucis, onde infelizmente ainda se navega aos ventos da ideologia pérfida do absolutismo autoritário. Nosso grande desafio é evitar que as velas desta caravela não se transformem em nossas precoces mortalhas.

O Itamaraty nem sequer deveria se preocupar com a restauração de nossa Diplomacia. Tarefa impossível, reconheço. Basta, por enquanto, se possível, participar de movimentos tendentes a viabilizar a vacinação de nossos cidadãos no menor prazo possível.

Exigirá coragem e arte. A sociedade agradecerá. E o Itamaraty retomaria seu lugar de honra na reconstrução da soberania nacional.

*Embaixador aposentado