Brasil, de teu berço esplêndido, meu sonho eterno

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Covas rasas, toscas cruzes de branco caiadas testemunham caladas os túmulos de 250 mil brasileiros levados pela Peste a assombrar um Brasil eternamente deitado em berço esplêndido.

Poderiam ser menos mortos, muito menos se tivessem alcançado em vida a mão amiga da saúde pública, atolada inesperadamente num cipoal de crendices, desligada de sua missão humanitária, tornada arrogante e parasitária a conduzir enfermos em direção à morte prematura e sufocante, como se homens fossem moscas ou, pior, bestas de carga manipuladas pela insânia do poder absolutista.

Cega e tresloucadamente, o país seguiu como vira-latas o negacionismo psicótico do paxá do Ocidente, entrincheirado na casa de branco pintada, e acompanhou mundo afora sua megalomania onipotente a fazer dos Estados Unidos campo santo de quinhentas mil almas. Até que, pelo voto do povo, fosse rejeitada sua ira desbussolada. E mesmo assim, só após a tentativa do golpe de Estado por ele atiçado junto com seus filhotes de Lúcifer dispostos a incendiar o Capitólio, decepar a cabeça de um aliado leal e, no delírio típico dos paranóides, considerar-se vítima de múltiplas traições.

Dois meses passados de sua partida, o mundo, apesar da Peste, retoma aos poucos seu prumo. As plataformas sociais já não são diariamente estupradas por sua voz lamuriosa e entediada a insuflar ódio e vingança e a armar em seu país a luta fratricida, trampolim para sua volta ao poder. Foi-se. E deverá encontrar-se com a justiça, tantas e tão variadas foram suas mentiras, trapaças e mesquinharias. Sórdido exemplar desta espécie dita humana.

Biden já vacinou milhões de americanos e não pretende parar até o último cidadão ser devidamente protegido da Peste. Publicamente, não propaga ter a politica de seu antecessor contribuído para um nítido aumento da desigualdade social nos Estados Unidos da América e no resto do mundo.

Discretamente, acusa o neoliberalismo e a globalização desequilibrada como tumores a necessitar de pronta e imediata excisão. Descarta continuar na arquitetura das cadeias globais de valor por ter percebido a fragilidade e a dependência de seu país em relação a produtos médicos e equipamentos hospitalares. E que, assim, os Estados Unidos da América não mais podem honrar acordos comerciais no âmbito da OMC ou fora dela, em especial os relacionados a compras governamentais. Enfim, absorveu as trágicas lições da Peste e prepara seu povo e sua nação para definitivamente vencer esta, a ainda disseminar a morte, e outras futuras que certamente virão, já previstas por cientistas.

Enquanto isso, no Brasil corre solto o último Baile da Ilha Fiscal. Indiferentes ao morticínio, nossas autoridades desprezam o uso de máscaras e zombam do afastamento social. Nossa juventude vive noites brancas como antevésperas da imortalidade e se entrega a Eros em fuga desesperada de Thanatos. Ao medo da morte se associa uma cumplicidade quase suicida de negativismo compartilhado com o atleta da ignorância.

O responsável pela saúde pública nacional vagueia por corredores e aeroportos a anunciar a chegada de milhões de vacinas, tal qual nosso responsável pela economia continua a nos enfeitiçar com a entrada de bilhões de dólares de investidores que aqui na realidade nunca aportam.

E nesta toada funérea, as mortes aumentam a cada dia, os hospitais regurgitam corpos moribundos e pouco a pouco as autoridades deixam de falar da Peste, como se fosse um repentino incômodo do último verão em Búzios. Tudo mágico, etéreo e envolto na nevoeiro comatoso de uma realidade distorcida, pré-fabricada e delirante.

Cidadãos são intensamente estimulados a comprar armas às dezenas, pois algo de mais grave germina em úteros luciferinos, e diante de insinuações crescentes de regimes de exceção, tudo é encarado como metáforas poéticas a rimar com sangue, ódio e morte. Um sono eterno desce sobre as consciências e todos dormem como hipnotizados por tanto horror e tamanha crueldade a fazerem da realidade um pesadelo invivido e amaldiçoado. A fazer ”Do beijo, a véspera do escarro” na linguagem neoplásica de Augusto dos Anjos. O mesmo que nos recorda que “a mão que afaga é a mesma que apedreja.” E nesta canoa furada vamos navegando, surdos às quedas pressentidas nos redemoinhos a já nos envolver.E no som cavernoso da catarata, a cada remada mais profundo e assustador

Monocórdico, nosso czar da economia, cego e surdo aos trovões da Peste e aos gritos de desespero de milhões de cidadãos sem emprego e sem pão propõe um auxílio de quatro meses de caraminguás, desde que se suprimam definitivamente dos orçamentos federal e estaduais as dotações obrigatórias para saúde e educação. Um Estadista-Escravocrata. Um Zeca diabo redivivo.

E não se vislumbra nenhuma alteração facial em nossas autoridades, nenhuma preocupação em buscar alternativas para um modelo econômico cuja falência se revela como fruto podre da Peste. Prosseguimos em manada, tangidos pelos chicotes da desregulação financeira, da privatização impensada, da redução do papel do Estado como se dele proviessem os males da sociedade, e da taxação fiscal regressiva, mas generosa com os mais ricos em detrimento dos mais pobres. Mas, o regime do chicote sempre é suave desde que você esteja do lado do cabo. Ou do punho.

De política externa não mais falo. A insensatez e a visão estereotipada do mundo não conduzem a diálogo frutífero. Tenho certeza que o Itamaraty saberá recuperar-se no momento seguinte em que se pretenda defender o verdadeiro interesse nacional.

Aos oitenta anos de vida, educado numa visão de Brasil soberano e parceiro de uma humanidade comprometida com a abertura para caminhos a nos enriquecer a vida e a alma, ver tão desfigurado o país que acolheu meus avós imigrantes, e deles se tornou o lar abençoado, me provoca além de profunda tristeza um imenso temor pelo futuro.

E a cada dia me parece absoluta e categoricamente indispensável ajudar a mover-se o poder da cidadania e sua capacidade de nos unir em firme resistência democrática e constitucional.

*Embaixador aposentado