Segunda maior média mundial de mortes por covid, Portugal é 'barril de pólvora'

Portugal saiu da UTI, mas respira com ajuda de aparelhos. A metáfora médica ajuda a explicar o fato de o país ainda ter a segunda maior média móvel mundial de mortes

Foto: AP / Armando Franca
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O pico de 16.432 novos casos foi atingido em 28 de janeiro. Desde então, houve uma queda acentuada, para 2.324, na quarta-feira (17). Já o número máximo de 303 mortes diárias ocorreu no dia 31 do último mês e caiu para 127. Ainda assim, Portugal continua com uma taxa de 13,52 mortes por milhão de habitantes na média móvel dos últimos sete dias, atrás apenas da Eslováquia, com 17,82.

Mas como Portugal transformou-se de referência mundial no combate à covid-19 na primeira onda da pandemia em um dos países com maior número de mortes por milhão de habitantes no mundo? O epidemiologista Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, explica que a grave crise se deve a um conjunto de fatores.

O primeiro deles, já conhecido, foi a flexibilização, pelo governo de Portugal, das medidas restritivas e de confinamento durante o Natal. Diferentemente do Réveillon, quando foram proibidos os deslocamentos entre cidades portuguesas, uma semana antes, as viagens haviam sido liberadas para as reuniões familiares no período natalino. O índice de contágios disparou, provocando o aumento no número de casos e de mortes, em cascata.

"Partimos para o período festivo com uma incidência elevada (cerca de três mil casos diários) e não foi bem comunicado o risco que tínhamos. O fato de não haver restrições claras no Natal também não correu bem", aponta Mexia em entrevista à agência de notícias Sputnik Brasil.

Por conta disso, o governo português prorrogou o lockdown até 1º de março pelo menos. As especulações são de que as medidas de confinamento só serão aliviadas após a Páscoa, na primeira semana de abril, justamente para evitar que as reuniões familiares provoquem uma nova acentuação na curva de contágio, que vem caindo. Como as renovações do estado de emergência são feitas a cada 15 dias, até lá, Portugal tenta aprender com os próprios erros.

Outra falha, na opinião de Mexia, foi na comunicação sobre o plano de vacinação contra a covid-19. No dia 26 de dezembro, os residentes em Portugal receberam um SMS pelo celular com uma boa notícia: "Vacinação começa amanhã. Vacina facultativa, mas recomendada e gratuita. Aguarde o contato do Sistema Nacional de Saúde." Porém, a boa nova criou uma falsa sensação de segurança e a expectativa de que o pior já havia passado.

"As vacinas chegam entre o Natal e o Ano Novo, e a comunicação virou totalmente para esse fato, ignorando que o papel das vacinas só se virá a fazer sentir quando tivermos uma cobertura vacinal mais elevada. As pessoas relaxaram também devido a isso", explica.

Apenas 200 mil pessoas já receberam as 2 doses da vacina

Um mês e meio após o início da imunização, cerca de 200 mil pessoas (1,99% da população) haviam recebido as duas doses da vacina até o último domingo (14), em Portugal continental, de acordo com o primeiro relatório de monitoramento da vacinação contra a covid-19, divulgado nesta terça-feira (16). Segundo o documento, 332.762 haviam recebido a primeira dose.

Se permanecer o ritmo atual, de quase 20 mil doses por dia, o objetivo de vacinar 70% dos adultos e atingir a imunidade de rebanho será atingido apenas em dezembro de 2022. A expectativa inicial era alcançar essa meta até o fim do verão europeu deste ano. Os problemas, sobretudo as fraudes cometidas por pessoas que não pertencem aos grupos prioritários e furaram a fila, levaram ao pedido de demissão de Francisco Ramos, coordenador do plano nacional de vacinação.

Um terceiro fator está associado à carência de recursos humanos no combate à covid-19. Dados da Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP), divulgados nesta terça-feira (16), mostram que em dezembro, no setor público, havia 800 médicos a menos do que no início da pandemia, em março, quando 31.898 estavam em atividade.

O panorama foi agravado em janeiro, quando mais de dez mil profissionais de saúde estavam infectados pelo novo coronavírus. A escassez levou o governo a cogitar transferir doentes para outros países e aceitar a ajuda de médicos e enfermeiros estrangeiros, mas apenas de países como Alemanha, França e Luxemburgo, apesar de não dominarem a língua portuguesa. Enquanto isso, dezenas de brasileiros que vivem em Portugal e aguardam autorização das respectivas ordens profissionais para trabalhar foram preteridas.

De acordo com o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, a falta de planejamento não se restringiu aos recursos humanos, mas também à organização da resposta, com falhas na testagem e no rastreio de contatos.

"O fato de não termos planejado os recursos necessários também contribuiu para não conseguir dar resposta ao enorme aumento de casos, o que levou a toda a situação desastrosa de janeiro. O pico de frio e a existência das variantes importadas também aumentaram a dimensão do problema", complementa Mexia.

O epidemiologista frisa que a variante britânica do novo coronavírus é a mais predominante e preocupante. Segundo um relatório do Centro Europeu de Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês), divulgado nesta segunda-feira (15), a estirpe britânica B.1.1.7 foi identificada em 45% dos novos casos nas últimas semanas em Portugal.

Em janeiro, a virologista italiana Marta Giovanetti já havia alertado que as novas cepas que preocupavam os cientistas, por serem mais transmissíveis, eram a britânica, a sul-africana e a brasileira P.1. A última delas fez com que, no dia 15 de janeiro, o governo do Reino Unido suspendesse os voos provenientes do Brasil e de Portugal, pelos fortes laços entre os dois países.

Duas semanas depois, foi a vez de o governo português suspender voos com o Brasil e Reino Unido, medida que foi prorrogada até 1º de março. Porém, o relatório da ECDC aponta uma menor incidência da variante brasileira na Europa. "A P.1 até agora está sendo relatada em níveis mais baixos, possivelmente porque está principalmente relacionada ao intercâmbio de viagens com o Brasil", lê-se em um trecho do documento.

Médico carioca aponta população idosa e tabagismo como outros fatores

O médico carioca Marcelo Matos, que trabalha na linha de frente do combate à covid-19 em dois hospitais da Área Metropolitana de Lisboa, observa ainda dois outros fatores, que, associados, tornam-se fatais no combate à doença. Para ele, o fato de Portugal ter uma população idosa grande (22,8% têm mais de 65 anos), combinado ao alto índice de tabagismo, contribui para a gravidade e a letalidade dos casos. Em uma hipérbole, ele compara o país a um barril de pólvora.

"A covid-19 era a centelha para estourar esse barril de pólvora que é Portugal. A pólvora seria essa população idosa e tabagista. Temos doenças associadas ao tabagismo, principalmente a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica tabágica), que já leva a baixas taxas de oxigênio. Isso, somado com a infecção de covid-19, pode levar a complicações mais graves", explica Matos à agência de notícias Sputnik Brasil.

Segundo o médico, as medidas do governo, após a adoção do lockdown, estão surtindo efeito, aparentemente. Ele acrescenta que a média móvel de mortes ainda continua elevada porque o período de internação nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) é mais longo em casos graves de covid-19.

"Os óbitos diários caíram muito. O problema é que estão morrendo as pessoas que ainda estavam nos intensivos desde a crise que houve há três ou quatro semanas. A média de permanência dos pacientes nos intensivos é de três semanas. Essa média representa o aumento dos casos de morte. Acredito que a curva de mortes vai decair muito. Os gráficos mostram que tende a baixar", prevê.

Matos, que em janeiro chegou a relatar à Sputnik Brasil um cenário de guerra no atendimento em um dos hospitais onde trabalha, agora respira mais aliviado, com esperança de dias melhores. No ápice da crise, ele viu uma fila de espera de mais de 50 pacientes a serem atendidos, um panorama bem diferente do seu último plantão nesta semana. Mas ele pondera que as UTIs são o último lugar em que há uma percepção da melhora de todos os números da covid-19.

"Essa percepção acontece logo na entrada da urgência, com um número muito menor de pacientes. Isso tem acontecido de forma gradual. Ontem [16], estava no Covidário e atendi três ou quatro pacientes só, onde antes praticamente eu não parava. Daqui a algumas semanas, o número de mortes nos intensivos vai cair abruptamente. Estou otimista e, juntamente com a vacinação, espero dias melhores para Portugal. Até porque, merecemos", torce. (com agência Sputnik Brasil)