Selic de 13,75% é o maior juro real desde 2016

Copom avaliará aumento de 0,25% em setembro

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decidiu nesta quarta (3), por unanimidade, elevar em meio ponto para 13,75% ao ano a taxa Selic, que é o piso do mercado financeiro. É a maior taxa de juros desde 1º de dezembro de 2016. Analisando o cenário, o Copom considerou “apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista” e disse que vai acompanhar a conjuntura para avaliar “a necessidade de um ajuste residual, de menor magnitude (0,25 ponto percentual), na próxima reunião". O Itaú acha que o ciclo acabou em 13,75%.

Marcada para 21 de setembro, a duas semanas da votação do 1º turno (2 de outubro) em meio às pressões eleitorais, a reunião do Copom estará sob o impacto dos efeitos deflacionários das reduções de impostos em preços administrados (energia elétrica, comunicações e combustíveis, que caíram acompanhando a ligeira baixa do petróleo no mercado internacional) e das pressões de demanda provocadas pelas benesses eleitorais que distribuirão R$ 41,2 bilhões a milhões de brasileiros a partir de 9 de agosto.

Como o próprio Copom assinala que as projeções do mercado são de que a inflação, medida pelo IPCA, cairá para 7,2% este ano, 5,3% em dezembro de 2023 e a 3,3% em dezembro de 2024, se a Selic fechar 2022 a 14% (e se confirmarem as expectativas do mercado de que o juros que remuneram os títulos da dívida pública só começarão a cair no 2º semestre de 2023 - e as apostas são de que fechem 2023 entre 10,75% e 11%), a partir de setembro, o país enfrentaria nos próximos 12 meses o período com o maior juro real da história recente da economia brasileira.

O efeito de que o “ciclo de aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista”, como sugere o Copom, será a trava na economia em 2022, quando as projeções da inflação (5,3%) ainda estão acima do centro da meta (3,25% ao ano, com tolerância de 1,50 p.p. = 4,75%). Em 2024, mantido o aperto dos juros, a meta de inflação (3%, com tolerância de 1,5% seria alcançada).

O Bradesco que espera alta de 2,3% no PIB deste ano, prevê PIB zero em 2023. A LCA Consultores espera alta de 2,1% este ano e crescimento de 0,5% em 2023. No Itaú, as projeções são de alta de 2% este ano e apenas 0,2% em 2023. O Santander, que, antes da reunião de hoje do Copom, apostava em nova alta de 0,50 p.p. em setembro, quando a Selic chegaria a 14,25%, previa aumento de 1,9% para o PIB deste ano e queda de 0,6% em 2023, com a manutenção prolonga de juros reais.

O impacto da eleição

A questão é que se a eleição for decidida no 1º turno, em 2 de outubro, como vitória do ex-presidente Lula, muita coisa pode mudar. Oficialmente, como o Congresso aprovou em fevereiro do ano passado a independência do Banco Central, o mandato da atual diretoria presidida por Roberto Campos Neto seria válido até 31 de dezembro de 2024 - dentro do horizonte de ajuste da inflação ao centro da meta.

Mas Lula já manifestou intenção de rever a autonomia do Banco Central, para vincular a indicação da diretoria ao ministro da Fazenda, cargo que pretende restabelecer, assim como o Ministério do Planejamento e o Ministério da Indústria e do Comércio. A volta dos ministérios é um mero ato administrativo da presidência da República.

Mas o fim da independência do Banco Central, aprovada pela Lei Complementar nº 179/2021, exigiria que o Congresso anulasse, em duas votações (na Câmara e no Senado) a lei que conferiu autonomia administrativa e política ao Banco Central, com mandatos não coincidentes com o do presidente da República.

O conjunto de medidas que vier a ser aprovada pelo novo governo (e mesmo pela administração Bolsonaro, se conseguir a reeleição) pode mudar o rumo da inflação e das medidas de seu combate depois do resultado eleitoral. Por isso, a reunião do Copom em 21 de setembro está cercada de tantas expectativas.

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