Saúde & Alimentação

Por Wilson Rondó Júnior

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SAÚDE E ALIMENTAÇÃO

Derrubando definitivamente o mito da carne vermelha

Publicado em 24/02/2025 às 06:02

Alterado em 24/02/2025 às 18:19

As recomendações das diretrizes alimentares que limitaram ou proibiram o consumo de todo tipo de carne vermelha, processada ou não, acabam de vez de ter algum sentido.

Venho falando isso há pelo menos 20 anos, inclusive tendo lançado o livro “Sinal verde para a carne vermelha”, em 2010, já enfatizando tudo que acaba mais uma vez de ser confirmado e que já tínhamos evidências suficientes para sabermos disso.

Mas agora, com essa nova pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Dalhousie, no Canadá, houve um alvoroço na comunidade científica. Trata-se de um conjunto de recomendações sobre consumo de carne vermelha e de carne processada, desenvolvidas com base em 5 revisões sistemáticas que consideram todas as questões.

Essa revisão sistemática sobre valores e preferências relacionadas à saúde rendeu 54 artigos da Austrália, Canadá, Europa e Estados Unidos, incluindo 41 estudos quantitativos e 13 qualitativos.

Mesmo assim, a American Heart Association, American Cancer Society and Harvard School of Public Health, ainda resistem a aceitar o estudo.

Resumo das evidências de danos e benefícios do consumo de carne vermelha não processada

1. Essas conclusões são baseadas em uma metanálise de 61 estudos envolvendo mais de 4 milhões de participantes, que observou:
- Não haver evidências de que a diminuição da ingestão de carne vermelha possa resultar redução de risco cardiovasculares (doença cardiovascular, acidente vascular cerebral e infarto do miocárdio).
- Não haver evidências de que a diminuição da ingestão de carne vermelha possa resultar na redução de risco de diabetes tipo 2.
- Não há diferenças estatisticamente significativas para mortalidade por todas as causas e mortalidade cardiovascular.

2. Já a metanálise de 17 cortes com 2,2 milhões de participantes também mostra evidências insignificantes de que a diminuição da ingestão de carne vermelha não processada possa resultar em uma redução da mortalidade geral por câncer ao longo da vida.

3. Outros 70 estudos de corte com pouco mais de 6 milhões de participantes não mostram riscos aumentados de incidência cardiometabólicos e adversos de câncer (mortalidade por câncer de próstata e incidência de câncer de mama geral, colorretal, esofágico, gástrico, hepático e pancreático).
Ou seja, sem diferenças estatisticamente significativas para esses tipos de câncer.

4. Revisão de 12 ensaios clínicos (com 54.000 participantes) randomizados sobre danos e benefícios do consumo de carne vermelha não processada, observou-se:
- pouco ou nenhum efeito no risco de principais resultados cardiometabólicos, mortalidade e incidência de câncer

5. Metanálise de 23 estudos de corte com 1,4 milhão de participantes, fornecendo evidências de que a diminuição da ingestão de carne vermelha não processada não traz redução de risco para:
- eventos cardiovasculares (doença cardiovascular, acidente vascular cerebral, e infarto do miocárdio).
- diabetes tipo 2
- câncer
- mortalidade por todas as causas e mortalidade cardiovascular

Recomendação de consumo para carne vermelha não processada
Baseado nestas revisões sistemáticas que consideraram todas essas questões se recomenda:
- Para adultos com 18 anos ou mais, a sugestão é a continuação do consumo atual de carne vermelha não processada.

Resumo das evidências de danos e benefícios do consumo de carne vermelha processada
1. Metanálise de 10 estudos de corte com 778.000 participantes, avaliando-se os efeitos da redução de ingestão de carne vermelha processada, apresentou:
- ausência de evidências significativas cardiometabólica adversa (mortalidade por todas as causas, mortalidade cardiovascular, acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio)
- ausência de evidências em relação ao diabetes tipo 2

2. Estudo com 3,5 milhões de participantes para efeitos adversos em relação ao câncer, também não se observou que uma redução de consumo pudesse reduzir mortalidade geral por câncer ao longo da vida; mortalidade por câncer de próstata; e a incidência de câncer de esôfago, colo retal e de mama.

3. Outros 70 estudos de corte com pouco mais de 6 milhões de participantes não mostram riscos aumentados de incidência cardiometabólicos e adversos de câncer (mortalidade por câncer de próstata e incidência de câncer de mama geral, colorretal, esofágico, gástrico, hepático, pancreático, endometrial, oral, ovariana). .
Ou seja, sem diferenças estatisticamente significativas para esses tipos de câncer.

4. Outra metanálise com 21 estudos avaliando resultados cardiometabólicos adversos com base em uma média de 10,8 anos de acompanhamento e resultados adversos de câncer ao longo da vida, também não se observou risco significativo com o consumo ou sua redução de ingesta.
Recomendação para consumo de carne vermelha processada
Baseado nestas revisões sistemáticas que consideraram todas essas questões se recomenda:
- Para adultos com 18 anos ou mais, a sugestão é a continuação do consumo atual de carne vermelha não processada.

Conclusão
O consumo de carne vermelha não processada e processada não apresentou risco significativo em relação à saúde, portanto, não sendo um fator causal de resultados adversos à saúde.

Referências bibliográficas:

- Methods for trustworthy nutritional recommendations NutriRECS (Nutritional Recommendations and accessible Evidence summaries Composed of Systematic reviews): a protocol. BMC Med Res Methodol. 2018;18:162
- The philosophy of evidence-based principles and practice in nutrition. Mayo Clin Proc Innov Qual Outcomes. 2019, 3;189-99
- Reduction of red and processed meat intake and cancer mortality and incidence. A systematic review and meta-analysis of cohort studies. Ann Intern Med. 1 October 2019
- Patterns of red and processed meat consumption and risk for cardiometabolic and cancer outcomes. A systematic review and meta-analysis of cohort studies. Ann Intern Med. 1 October 2019
- Effect of lower versus higher red meat intake on cardiometabolic and cancer outcomes. A systematic review of randomized trials. Ann Intern Med. 1 October 2019
- Red and processed meat consumption and risk for all-cause mortality and cardiometabolic outcomes. A systematic review and meta-analysis of cohort studies. Ann Intern Med. 1 October 2019
- Health-related values and preferences regarding meat consumption. A mixed-methods systematic review. Ann Intern Med. 1 October 2019
- Red meat and health outcomes: a systematic review. PROSPERO 2017 CRD42017074074.
- The impact of residual and unmeasured confounding in epidemiologic studies: a simulation study. Am J Epidemiol. 2007;166:646-55

Dr. Wilson Rondó Jr.
CRM RJ 52-0110159-5
Cirurgião Vascular de formação e Nutrólogo
Registro nº 058357

 

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