
O OUTRO LADO DA MOEDA
Ata do Copom parece DR com o governo
Publicado em 13/05/2025 às 15:41
Alterado em 13/05/2025 às 15:41

Acompanho as atas do Comitê de Política Monetária (Copom) há 25 anos. Jamais encontrei uma Ata que marcasse recado tão claro do Banco Central ao Executivo. Como numa DR com o governo, o Banco Central de Gabriel Galípolo, ressaltando a “independência colaborativa” que jamais existiu nos dois anos finais da gestão de Roberto Campos Neto (sempre arredio ao governo Lula), enquanto dava uma pausa na alta dos juros – com a Selic em 14,75% (maior taxa desde maio de 2006) – pediu um voto de confiança (e trégua nas medidas de estímulo) para dar tempo à política monetária fazer efeito na desaceleração da inflação. Por sinal, o Copom prevê 4,8% para este ano, bem menos que os 5,50% previstos pelo mercado na última Pesquisa Focus.
O mais claro recado foi o Comitê “reforçar que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta. Alguns fatores elencados durante a reunião seguem dando confiança ao Comitê de que o processo de moderação de crescimento deve ocorrer, após vários anos de surpreendente dinamismo. A política monetária significativamente contracionista já tem contribuído e seguirá contribuindo para a moderação de crescimento”.
Bradesco e Itaú reagiram de forma convergente: a Selic fia em 14,75%.
Didaticamente, o Copom explica que “dadas as defasagens inerentes aos mecanismos de política monetária, espera-se que tais efeitos se aprofundem nos próximos trimestres. (...) No crédito, já se observa alguma inflexão em algumas linhas e, no caso de pessoas físicas, um aumento do comprometimento da renda familiar com o serviço das dívidas pode estar antecipando uma menor demanda por crédito”; e o Copom já estava considerando “algum impacto das alterações no consignado privado sobre o crescimento”, sobretudo, por meio de elevação de renda disponível a partir da troca de dívidas, o que tem efeito mais comedido sobre a projeção agregada”.
Os membros do Copom ressaltaram “novamente, que a construção da confiança necessária para definir o patamar apropriado de restrição monetária ao longo do tempo passa por assegurar que os canais de política monetária estejam desobstruídos e sem elementos mitigadores para sua ação”. E, num recado mais claro, frisou que “para o cumprimento de seu mandato e convergência da inflação à meta com menores custos, a política monetária deve ser capaz de atuar sem impedimentos em todos os canais”.
Harmonia das políticas fiscal e monetária
O Comitê reforçou a visão de que "o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade".
O Comitê (...) “manteve a firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, o debate do Comitê evidenciou, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas.”
Para o Bradesco: fim do ciclo
Para o Bradesco, cujo ex-diretor de Tesouraria, Nilton Davi, assumiu a diretoria de Política Monetária do Banco Central em janeiro, a “política monetária significativamente contracionista já tem contribuído e seguirá contribuindo para a moderação de crescimento”. Na ata, ressalta o Bradesco, o Copom reforçou a cautela com o cenário global, indicando que a incerteza gerada pelo “Liberation Day” (choque tarifário de Trump) foi maior que a esperada.
O Bradesco chama a atenção para o fato de que “a reunião ocorreu antes do acordo comercial entre EUA-China neste final de semana, que pode reduzir algumas das incertezas globais. O Copom nota que os sinais de moderação da atividade ainda são incipientes, mas se diz confiante na desaceleração à frente. Segundo o Comitê, a taxa de juros está em nível significativamente contracionista e tem “contribuído para a moderação do crescimento”.
O Banco Central vê os sinais da política monetária em funcionamento tanto no mercado de crédito, câmbio, sondagens empresariais, balanço das empresas e no mercado de trabalho. O Bradesco considera a ata “consistente com nosso cenário atual de fim de ciclo em 14,75% a.a". Mas, “a diminuição da intensidade do choque global com o acordo EUA-China e dados mais robustos da atividade econômica podem levar o Banco Central a reavaliar o cenário”.
A visão do Itaú
O Itaú, por muitos anos, teve representantes no Copom, como seu diretor de Estudos e Pesquisas Macroeconômicas, Mário Mesquita. O banco, que chegou a prever a Selic em 15,75%, reconhece que a ata “sugere que o comitê pausou seu ciclo de alta. Os membros do Copom parecem operar sob uma convicção muito forte de que a política monetária está em um nível significativamente contracionista, o que influencia sua avaliação geral da conjuntura. O comitê está confiante de que a economia já está desacelerando e já observa sinais de alívio no mercado de trabalho”, diz.
“As autoridades preveem desaceleração do crédito como consequência do aperto monetário empreendido até então e minimizam o impacto potencial do novo crédito consignado”.
“Estimamos que a projeção de inflação (não apresentada no texto) baseada em uma taxa Selic constante ao longo do horizonte de política monetária seria de 3,3%, provavelmente próxima o suficiente da meta para o comitê”.
Para o Itaú, “embora a ata não feche a porta para um aumento adicional, o Comitê parece estabelecer uma barra alta para tal movimento. Assim, revisamos nossa projeção para a taxa Selic ao final do ciclo para 14,75%. Essa também deve ser a taxa ao final do ano, já que não prevemos condições, nos próximos trimestres, que permitam ao Copom começar a cortar – isso deve ocorrer no início de 2026.