
O OUTRO LADO DA MOEDA
Dólar volta a rugir forte nos mercados
Publicado em 04/04/2025 às 15:46
Alterado em 04/04/2025 às 15:46

No primeiro dia depois que a poeira do choque tarifário dos Estados Unidos nas importações, que já teve anúncio de revide da China, com imposição de tarifas recíprocas de 34% sobre os produtos “made in USA”, abaixou, o dólar voltou a rugir com força nos mercados de câmbio, com alta quase geral. As exceções foram as baixas de 0,23% frente ao iene japonês e de 0,81% frente ao franco suíço. Estranhamente, o yuane se manteve estável.
O dólar mostrava força contra o euro, que caía 0,38% às 11:30 (horário do Brasil), e a libra esterlina (-0,81%). Mas as moedas que sofreram maior desvalorização foram o dólar australiano (-3,63%), a coroa norueguesa (alta de 3,58% do dólar), a cora sueca (alta de 2,07% do dólar), o peso mexicano (o dólar subiu 2,62%) e o real, com o dólar subindo 2,82%, cotado a R$ 5,7875.
Como numa gangorra, os mercados de commodities (em grande parte com os preços referenciados em dólar) tiveram fortes quedas. O ouro era negociado com baixa de 11,34%, o barril do petróleo Brent para entrega em junho tinha queda de 7,44%, a soja caía 3,20%, o café tinha baixa de 3,0%, o suco de laranja despencava 3,36% e o boi gordo estava em queda de 1,48%. No mercado de ações as quedas dos índices estavam na faixa de 3%.
Goldman Sachs mede impactos das tarifas
O roteiro que o Departamento de Comércio dos EUA usou para aplicar as maiores tarifas, segundo o Banco Goldman Sachs, levou em conta o tamanho proporcional das exportações para os Estados Unidos. Assim, a União Europeia, que exportou US$ 606 bilhões em 2024, com tarifa efetiva de 1,4%, acabou levando 20% de tarifas recíprocas. Entretanto, como cerca de um terço das importações americanas são isentas (ou têm baixíssimas tarifas nos insumos estratégicos), o impacto efetivo final fica em 13,5%.
No México, que exportou US$ 506 bilhões, com tarifa efetiva de 0,5% (devido ao acordo preferencial que dividia com o Canadá, o somatório das novas tarifas fica em 7,3%. No caso do Canadá, que exportou US$ 413 bilhões, com tarifa de 0,3% (como as exportações de óleo, gás e energia seguem isentas) a nova tarifa fica em 5,5%.
Já a China, 3º maior fornecedor dos EUA (US$ 439 bilhões), com tarifa efetiva de 110,9% em 2024, a escalada tarifária que aumentou para 34% da tarifa recíproca (26,3% em termos efetivos) teve aumento de 47,5%, o mais alto imposto pelo Departamento de Comércio.
O 2º país mais taxado, curiosamente, será o Camboja, que forneceu apenas US$ 13 bilhões no ano passado, com tarifa média de 7,2%, que vai saltar para 41,4%, com média efetiva de 41,3%. Vai ficar à frente do Vietnã, que exportou US$ 137 bilhões no ano passado, com tarifa média de 4,1% e agora com reajuste de 41,1% vai ficar com tarifa efetiva de 40,4$
O Japão, 5º fornecedor americano, com US$ 148 bilhões no ano passado, com tarifa média de 1,7% vai ser onerado em 24%, com tarifa efetiva de 11,7%.
E o Brasil? O 16º país na lista do USD of Commerce, com vendas de US$ 42 bilhões aos Estados Unidos e tarifa média de 1,5%, com a taxação de 25% em aço e alumínio e a nova alíquota de 10% para os demais produtos, terminaria com alíquota efetiva de 6,5%. A título de comparação, o Reino Unido, que exportou US$ 68 bilhões para o Tio Sam, vai ter aumento também de 10% e ficar com alíquota efetiva de 5,6%, em melhor situação que o Brasil.
Impactos na inflação e no crescimento
A política tarifária “recíproca” que o presidente Trump anunciou esta semana imporia uma taxa tarifária média ponderada de 18,3% aos parceiros comerciais dos Estados Unidos, cerca de três pontos percentuais acima do que a divisão de pesquisas do Goldman Sachs esperava. Entretanto, como cerca de um terço do total das importações estaria isento, o impacto se reduz para um aumento de 12,6 pontos percentuais na tarifa efetiva.
Os pesquisadores do GS estimam que esta e outras tarifas anunciadas no acumulado do ano aumentariam a tarifa efetiva dos EUA em 18,8 pontos percentuais, de acordo com um relatório datado de 2 de abril por Alec Phillips, economista-chefe político dos EUA da Goldman Sachs Research, e da economista Elsie Peng. Eles assumem que as negociações com parceiros comerciais levarão a taxas "recíprocas" um pouco mais baixas do que as anunciadas esta semana. No entanto, a perspectiva de escalada após tarifas retaliatórias e uma alta probabilidade de novas tarifas setoriais sugerem que a tarifa efetiva dos EUA pode subir mais do que os 15 pontos percentuais que os economistas do Goldman esperavam anteriormente.
As tarifas afetam o crescimento econômico por meio de seu impacto semelhante ao imposto sobre a renda disponível real e os gastos do consumidor; sua tendência de enervar os mercados e apertar as condições financeiras; o impacto da incerteza sobre a política comercial no investimento empresarial; e o modesto efeito compensatório de um déficit comercial mais estreito, de acordo com o Goldman Sachs Research. Embora as mudanças tributárias pessoais e corporativas que o Congresso provavelmente aprovará impulsionem modestamente o crescimento, é improvável que a política fiscal compense o impacto das tarifas e dos ataques à imigração este ano.
Quando se trata de inflação, a regra geral da equipe é que cada aumento de um ponto percentual na tarifa efetiva aumenta os preços básicos do PCE em cerca de 0,1 ponto percentual
A ordem específica que as novas taxas tarifárias recíprocas se aplicam apenas ao conteúdo não americano de bens, se pelo menos 20% do conteúdo for de origem americana. Isso poderia reduzir incrementalmente o efeito da taxa tarifária, mas a exclusão do conteúdo americano teria sido mais importante para as importações canadenses e mexicanas e é improvável que seja um fator importante para as importações em geral.