Ernane Galvêas, um século de economia

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Conheci Ernane Galvêas, ex-ministro da Fazenda (1980-85) que morreu ontem, aos 99 anos, como presidente do Banco Central em fins de 1972, quando começava a vida de jornalista de economia no velho Jornal do Brasil, na avenida Rio Branco, 110. Dos ministros da Fazenda e economistas que conheci, Galvêas só viveu menos tempo do que Eugênio Gudin, que morreu em outubro de 1986, já centenário. Nascido em 1º de maio de 1928, Antônio Delfim Netto, está com 94 anos. O ex-ministro da Fazenda, Octávio Gouveia de Bulhões, faleceu em 1990 aos 84 anos. Galvêas trabalhou com todos eles.

Ao longo de 50 anos, descobri várias facetas deste homem público, economista, advogado e professor de Contas Nacionais na UFRJ e na UERJ. Capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, sua carreira no serviço público começou há 80 anos, quando passou em concurso do Banco do Brasil. Em 1953 ingressou nos quadros da Sumoc (Superintendência da Moeda e do Crédito) como chefe-adjunto do departamento Econômico. Curiosamente, o BB e a Sumoc foram a gênese da criação do Banco Central do Brasil, em 31 de dezembro de 1964, do qual Galvêas foi o 3º e um dos mais longevos presidentes (1967-1974). Retornou ainda por breve período (agosto de 1979 a janeiro de 1980), quando assumiu o Ministério da Fazenda.

Jovem subeditor de Economia do JB, acompanhei, em 1975, o então editor Noênio Spínola em almoço com o ex-ministro Octávio Gouveia de Bulhões (que na época presidia o Banco do Estado da Guanabara), Galvêas e o economista Carlos Geraldo Langoni, levado à diretoria do BC na sua 2ª passagem pela autoridade monetária e que assumiu a presidência quando Galvêas virou ministro. Fiquei impressionado com os conhecimentos de Ernane Galvêas sobre Contas Nacionais e pelo respeito que Bulhões demonstrou por ele.

 

A instrução 204 da Sumoc

Com o tempo, ao editar matérias no JB, descobri no arquivo fotográfico uma foto que explicava tudo e desfazia as imagens que o bigodinho demodê e os ternos riscas de giz usados por Galvêas transmitiam. Era uma foto de março de 1961. Nela, Galvêas ajudava, em um quadro negro, o então ministro da Fazenda de Jânio Quadros, o baiano Clemente Mariani, que foi dono do poderoso Banco da Bahia, a explicar uma das mais rumorosas mudanças na economia brasileira: a Instrução 204 da Sumoc. Pela medida, Mariani acabava com os quatro regimes de câmbio com leilões especiais que privilegiavam determinados setores empresariais. Na prática, foi instituído o câmbio livre.

Houve forte reação dos que perderam vantagens (como o câmbio especial para compra de papel de imprensa - que gerou forte oposição do então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que tinha se licenciado do seu diário “Tribuna da Imprensa”). Em uma ida de Lacerda ao Palácio do Planalto, ele e Jânio (ambos eleitos pela UDN) se desentenderam definitivamente, passando Lacerda a fazer pesadas críticas ao presidente pela TV, quando retornou ao Rio. Isso agravou a oposição a Jânio Quadros que levou a seu frustrado golpe com a renúncia em 25 de agosto de 1961, quando pretendia voltar ao cargo com apoio das Forças Armadas. A carta de renúncia (ato de vontade unilateral) foi lida no Congresso pelo presidente do Senado, Auro de Moura Andrade. O cargo foi declarado vago, enquanto o perplexo Jânio aguardava na base aérea de Cumbica (atual aeroporto de Guarulhos-SP) o apoio das três armas.

 

Duas vezes no Banco Central

Em 1962 Galvêas foi contratado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para desenvolver, com grupo de economistas latino-americanos, estudo sobre o financiamento das exportações de bens de capital (isso explica porque estava na direção da Cacex - Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil, desde 1966, quando foi chamado pelo então ministro da Fazenda, Delfim Netto a substituir Rui Leme na presidência do Banco Central, em fevereiro de 1968). Em 1964, Galvêas que já trabalhara com Octávio Gouveia de Bulhões na Sumoc, foi chamado para atuar como assessor econômico do ministro da Fazenda que passou a fazer dupla com Roberto Campos no Ministério do Planejamento, empreendendo o PAEG (Plano de Ação Econômica do Governo), plano de reformas estruturais lançado em agosto de 1964 pelo Ministério do Planejamento e da Coordenação Econômica.

Foi neste período fora do governo que estreitei meus contatos com Galvêas, quando passou a ser presidente da Aracruz Celulose, um grande projeto estruturante no norte do Espírito Santo, que teve apoio de outro capixaba ilustre, o então presidente do BNDE (sem o S, de social), Marcos Pereira Viana. Depois, quando ele reassumiu o BC, em agosto de 1979, estava em um seminário na Confederação Nacional do Comércio, onde ele era assessor de outro capixaba, Antônio de Oliveira Santos, quando um constrangido Galvêas avisou a seu amigo, Carlos Brandão, que tinha acabado de ser convidado por Delfim Netto, nomeado ministro do Planejamento, após renúncia de Mário Henrique Simonsen, para ocupar o cargo que era exercido por Brandão.

 

A crise da dívida externa

Quando veio a crise da dívida externa editava a Economia do JB (janeiro de 1982 e setembro de 1983, quando o JB “malufou” - aderiu à candidatura de Paulo Maluf - e o editor-chefe, o saudoso Paulo Henrique Amorim foi substituído, com a maior parte dos editores, acabei indo para “O Globo”, de onde veio George Vidor, que tinha convidado para ser sub-editor e acabou me substituindo, quando saí). Langoni e Galvêas sempre foram corretos comigo. Quando não podiam assumir certas informações (as eleições de novembro de 1982, além da escolha direta dos novos governadores, definiriam o Colégio Eleitoral que escolheria o substituto do general João Figueiredo) em “on”, davam as dicas em “off”. Sabia-se, desde setembro, na reunião anual do FMI, em Toronto (Canadá), após a moratória do México, que a torneira tinha fechado. Mas não se podia dizer (salvo em “on”) que o Brasil ia recorrer ao FMI para intermediação na renegociação da dívida externa com os bancos credores. Infelizmente, a imprensa que era furada pelo JB forçava um ou outro a desmentir, comodamente, em “on”.

Apurados os votos para os governos estaduais (a oposição fez a festa, a começar por Leonel Brizola no RJ e Franco Montoro em SP) e o Colégio Eleitoral, Galvêas deu, em 26 de novembro de 1982, ao fim de uma reunião no Banco de Compensações Internacionais, o BIS, o Banco Central dos Bancos Centrais, em Basíléia, Suíça, a informação de que o Brasil ia bater às portas do FMI. Foi uma época muito tensa. A renegociação tinha de ser fechada antes do Natal. Aí vinham as festas de fim de ano e o mercado parava. Com tratativas em Nova Iorque (o centro financeiro do mundo tinha duas horas de atraso no fuso horário, o que a atrasava a chegada das matérias das quais dependia o fechamento da Economia e da primeira página do jornal). Cansei de sair da Avenida Brasil 500 após 23:30. Hoje, tudo só sairia na internet.

Na semana seguinte desembarcou a tropa de choque do FMI e a brilhante repórter Kristina Michahelles, que escolhi para cuidar da dívida, deu show: o chefe da missão era um alemão, Horts Struckmeyer. Ele estava hospedado no Hotel Rio Palace (atual Fairmont). Kristina descobriu o quarto e ligou direto. Quando a voz atendeu e ela falou em alemão (sua 2ª língua, ela fala várias outras, até russo, se não me engano) Struckmneyer se desmanchou do outro lado da linha. O JB saiu na frente de todo o mundo. O grande público depois conheceu a missão chefiada pela chilena Ana Maria Jul, mas Struckmeyer era o chefe, como diretor do FMI para o Hemisfério Ocidental.

 

Uma jornada em Nova Iorque

Quando houve a renegociação da dívida com os bancos em 20 de dezembro, no Hotel Plaza (antes de Donald Trump comprar e reformar) fui para lá, junto com Vidor, editor de Economia de “O Globo”, e Reginaldo Heller, da “Gazeta Mercantil”. Fritz Utzeri, correspondente em Nova Iorque, faria a cobertura comigo e sua casa era “nossa redação local”. Lembro que Paulo Francis pela “Folha” se gabava: “já tenho a matéria, só falta o lead”. A reunião se arrastava. Diante das evasivas dos banqueiros em dar qualquer palavra após os negociadores brasileiros - Delfim, Galvêas e Langoni, com os assessores, desembrulharem o pacote de quatro linhas - (renegociações de linhas de “hot money” e créditos comerciais, que deveriam ser mantidas, para a Petrobras poder comprar petróleo, pois o Brasil dependia de 80% do petróleo importado -, além de renegociação das dívidas e novos créditos) - me lembrei da Kris.

Vi um banqueiro francês (sabia que os europeus estavam mais resistentes à renegociação, costurada pelos banqueiros americanos) e o segui ao descer as escadas para fugir do assédio. Exclamei um “Monsieur, s’il vous plait”. Aquilo foi música para os ouvidos dele (e os meus): ele me contou, em francês, as resistências. Tinha o miolo da história. Ficamos Fritz, Vidor e Reginaldo até o fim, para a coletiva do trio brasileiro. Delfim tentou fazer crer que era um mero refinanciamento da dívida. Só ao final, espremido por nós, Galvêas foi direto ao assunto: era uma renegociação clássica de um país que quebrou.

O JB (PHA) deu manchetão de duas colunas com “Renegociação” na 1ª página e minha matéria foi vendida para o “Estadão” (o então correspondente Pimenta Neves tinha sido assaltado à mão armada, em casa, em Washington, e não foi a Nova Iorque, e o editor de “O Estado de S. Paulo”, Miguel Jorge, comprou minha matéria): os dois mais importantes jornais da época deram “Renegociação” de manchete. Fritz e eu soubemos no dia seguinte, quando Paulo Henrique contou e pediu mais coisas que seriam publicadas pelo jornal dos Mesquita (Delfim pressionou, nada saiu; pediu minha cabeça no JB, porque fiz um pingue-pongue com ele, que deixou claras as suas mentiras). Soube disso ao voltar ao Brasil, pelo PHA, e, muitos anos depois, por comentário do Dr. Brito, quando fui editorialista, na volta ao JB (1988-2001).

No último encontro com Galvêas na CNC, em 2018, quando estava à frente do retorno do JB às bancas sob o comando de Omar Resende Peres, conversamos muito sobre aqueles momentos e ele me deu um livro que escreveu sobre o tema. Presto essa homenagem a um correto servidor público.

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