Copom foi lerdo na subida da taxa Selic

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Ser “engenheiro de obra feita é fácil”, diz o velho ditado. Mas essa coluna e o JB online têm autoridade para criticar – alertamos bem antes da 1ª elevação da taxa básica de juros, em 17 de março de 2021, quando a Selic subiu de 2% para 2,75% ao ano (surpreendendo o mercado que esperava 0,50%) – que, diante da forte escalada do dólar desde o ano passado, que gerou pressões inflacionárias nos alimentos e combustíveis, com pressões indiretas nos custos industriais, a dose de elevação dos juros deveria ser drástica e intensa.

O economista Manuel Jeremias Leite Caldas, colaborador do JB, defendeu uma semana antes da reunião de março que o Copom adotasse um “cavalo de pau” na política monetária elevando de cara a Selic em 1% em março e maio para, com o choque dos juros, trazer o dólar rapidamente para baixo. Se o Copom tivesse feito isso a Selic já estaria em 4% ao ano e o dólar (cotado hoje em R$ 5,07) abaixo de R$ 5. Muito da alta de mais 15% dos alimentos e de mais de 25% dos combustíveis e da energia elétrica (Itaipu fornece 35% da energia hidroelétrica do país cotada em dólar) teria sido evitada.

O resultado é que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), que se reúne amanhã e 4ª feira possivelmente para nova elevação de 0,75% continua correndo atrasado atrás da inflação. Segundo todas as projeções o IPCA em 12 meses – que entrou em maio na casa de 8,06% vai estourar a meta do ano (3,75%, com tolerância de 1,50 ponto percentual para o teto, ou seja, 5,25%. A pesquisa Focus, encerrada dia 11, 6ª feira) e divulgada hoje pelo Banco Central, aponta para 5,82% de IPCA (5,85% nas últimas leituras). Em função disso o mercado reviu a meta da Selic em dezembro de 5,75% para 6,25%. O Itaú espera ICPA de 5,50% e Selic em 6%.

Erro de dosagem

Se o Copom mantiver a dosagem de 0,75% esta semana, colocando a Selic em 4,25% ao ano (defendo que suba logo para 1,00%, com a Selic em 4,50% a.a.) no cenário de 6% poderia reduzir a dose para 0,50% em 4 de agosto e em 22 de setembro, fazendo ajuste de 0,25% em 27 de outubro.

Entretanto, se a dosagem final chegar aos 6,25% apontados pelo consenso do mercado na pesquisa Focus, ficou claro que houve erro de avaliação da inflação e de dosagem de juros para neutralizar as pressões vindas do dólar. Neste caso, para abreviar o sofrimento, não seria aconselhável antecipar uma alta de 1% nesta semana? Com a Selic em 4,50%, haveriam ajustes até novembro (e não em dezembro).

Cada vez mais concordo com o Manuel Jeremias: se o Copom tivesse dado um “cavalo de pau” em março, o cenário estaria bem mais claro.

Tudo foi causado pelo dólar solto

O erro de deixar o dólar solto no ano passado causou muitas distorções na economia brasileira. Estimulou a exportação recorde do agronegócio (cujos preços são cotados em dólar). Isto elevou os preços nas prateleiras dos supermercados. Para piorar, a exportação foi tanta que em setembro do ano passado o país “celeiro do mundo” teve de importar arroz e soja em grão, para fazer óleo, que já tinha subido mais de 100% para o consumidor e o arroz 70%.

Na análise semanal da economia, o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú, que espera alta de 0,75% na Selic (dentro da sua previsão de que a taxa feche o ano em 6%) acredita que “a autoridade monetária sinalize um aperto adicional de 0,75 p.p. em agosto. Tal sinalização deverá, a propósito, contribuir para consolidar a tendência recente de fortalecimento do real, que se apresenta como o principal mecanismo de desinflação disponível no curto prazo”. Ou seja, a melhor arma contra a inflação, que tende a ficar na faixa de 8% até setembro, teria sido segurar o dólar já no ano passado.

Na energia, o gato subiu no telhado

O caro leitor desta coluna também deve se recordar que há dois ou três meses vimos alertando para os riscos de racionamento ou apagão na energia elétrica. E o fato, denunciado em vários artigos de Manuel Jeremias Leite Caldas, não se deve exclusivamente à estiagem, como sugere a narrativa das autoridades do Ministério das Minas e Energia.

Por sinal, da semana passada para cá, o MME ligou o modo “pânico” e, através de Medida Provisória, passou a centralizar as decisões da Aneel, O.N.S., todas anteriormente subordinadas à Câmara de Monitoramente do Setor Elétrico (CMSE) num novo órgão - a Câmara de Regras Operacionais Excepcionais para Usinas Hidrelétricas (CARE), que envolve ainda o Ministério da Infraestrutura e o Ibama, com o objetivo de estabelecer, excepcionalmente, limites de uso, armazenamento e vazão das usinas hidrelétricas.

De cara, determinou estado de emergência em 5 usinas do Rio Paraná, o eixo principal dos reservatórios das diversas usinas hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste. Engenheiro elétrico que acompanha o setor há muitas décadas, Manuel Jeremias vinha alertando desde o fim do ano passado para o excesso de consumo dos setores eletro-intensivos (produtores de alumínio, petroquímica, aço, celulose e metais não ferrosos) que, estimulados pela alta do dólar e pela bandeira verde na energia de maio a dezembro (em novembro, diante do forte consumo e da baixa precipitação pluviométrica, causado pelo fenômeno La Niña, a Aneel elevou a tarifa de dezembro para vermelha 2, a mais alta da escala).

E Manuel Jeremias garante que o racionamento está contratado, porque as termelétricas (que iriam poupar o consumo de água nas usinas hidroelétricas) demoraram a ser acionadas. Para piorar, a Petrobras vai fazer uma parada de manutenção na FPSO que processa o gás do campo de Mexilhão (SP), o maior da Bacia de Santos. E, como desgraça pouca é bobagem, a Eletronuclear vai fazer em breve a parada de manutenção de Angra II. Angra I, que gera 640 MMW fez parada no 1º trimestre e já voltou a operar. Angra II gera um máximo de 1.350 MMW. Vai fazer falta.

O jogo dos 7 ou oito erros na energia

São várias as causas que se acumulam num desastre de avião. Na energia, um apagão ou uma crise de racionamento forçado também não decorrem de acúmulos simultâneas de problemas. Eles vêm de longe e vão se somando. Logo em agosto de 2020 (em pleno período de estiagem) Aneel&cia deveriam ter percebido que o consumo fora da curva dos setores eletro-intensivos iria gerar problemas adiante.

Os preços do petróleo e do gás estavam em queda. Teria sido o momento propício para acionar as térmicas, com tarifas especiais para os grandes consumidores. Nada se fez (nem se tributou os lucros extraordinários do agronegócio e dos eletro-intensivos). Só em fins de novembro a Aneel e o O.N.S. viram o iceberg à frente, quando foram surpreendidos pelo apagão do Amapá (de outra origem, mas sintomático).

Todas as planilhas sobre o nível dos reservatórios apontavam para a maior crise hídrica. Nada se fez para reduzir o consumo das indústrias ou estabelecer tarifas diferenciadas para consumidores residenciais e eletro-intensivos.

O desastre que está batendo à porta lembra a velha piada do mordomo português (em tempos bem anteriores à internet), instruído pelo patrão a lhe informar, enquanto viajava fora do país, sobre qualquer anomalia em casa. Três dias depois, recebe um telegrama: “Senhor, o seu gato, morreu.”. Foi um choque, que muito o abalou, quase estragando a viagem. Para evitar dissabores súbitos, ligou diretamente para casa e explicou detalhadamente para que notícias graves fossem dadas aos poucos. “Você me manda um primeiro telegrama dizendo, por exemplo, “o gato subiu no telhado”, depois outro, dizendo que caiu e eu vou me preparando para o pior”. No dia seguinte, o mordomo manda telegrama: “Sua mãe subiu no telhado”.

A criação da CARE, em tempos de internet, parece este último telegrama.

A divisão das bacias explica tudo

O Brasil tem quatro bacias hídricas que determinam as principais fontes de geração de energia hidroelétrica do país. A primeira usina foi criada em Alagoas por Delmiro Gouveia, em 1903. Já em 1959, numa visita do Imperador d. Pedro II à região do Rio São Francisco quando sai da Bahia e divide Alagoas de Sergipe, ficou constatado o alto potencial de geração de energia das cachoeiras locais. As Usinas de Paulo Afonso tornaram a energia realidade a partir dos anos 70. Elas fazem parte da região Nordeste. Graças às fontes eólicas, implantadas neste século, o NE produz mais do que consome e não há linhas de transmissão para trazer o excedente da região para o Sudeste.

A região Sudeste, a mais populosa e mais industrializadas do país é a que mais gera e consome energia no país. Para atender o consumo, o Sudeste recebe energia da região Sul (onde está a binacional Itaipu, responsável por 30% da energia hidroelétrica do país, cotada em dólar). E das recentes usinas da região Norte, como as do rio Madeira (AC) e Belo Monte (PA). Ao lado de Tucuruí (PA) não conseguem suprir a fome de energia do Sudeste-Centro Oeste. Curiosamente, no jargão da Aneel, esta região tem a sigla SECO.

Nada mais preciso para descrever a escassez de água da região. Causada, também, pelo avanço do desmatamento da Amazônia, que reduz a carga dos “rios voadores” as nuvens que evaporam a água da floresta e causam chuvas no Centro-Oeste e nas bacias formadoras das principais usinas do Sudeste (Paranaíba e Rio Grande, formadores originais da Bacia do Paraná, alimentada pelos rios Tietê e Paranapanema (em São Paulo).