Bolsonaro tenta contornar debandada do governo

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Advertido com um “cartão amarelo” há uma semana, em discurso do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e pressionado pela insustentável permanência do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que se demitiu hoje, o presidente Jair Bolsonaro aproveitou a ocasião para dar uma rearrumação geral no governo. Ele vai trocar seis ministérios para disfarçar um princípio de debandada no 2º escalão que reflete a falta de eficácia de seu governo no enfrentamento da Covid-19, que já matou 314 mil brasileiros.

Na semana passada, apresentou sua demissão o presidente do Banco do Brasil, André Brandão, no cargo desde setembro. Inconformada com o corte de verbas para a realização do Censo de 2021 (adiado de 2020), a presidente do IBGE, Suzana Cordeiro Guerra pediu demissão ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Hoje, enquanto o noticiário era dominado pela entrega do cargo por Ernesto Araújo e a demissão, imprevista, do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva (que pode levar à troca dos comandantes das três forças, a começar pelo comandante do Exército, general Eduardo Pujol, respeitadíssimo na força por ser tríplice laureado em 1º lugar na AMAM, na EsAO e na ECEME), a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Izabel Lima Pessoa, pediu demissão do cargo, um dos mais importantes da pasta.

Troca-troca geral

Com a nova mexida de hoje, o Ministério de Bolsonaro que oficialmente tem 23 pastas com “status” de ministro - considerando a Controladoria Geral da União (CGU) a Advocacia Geral da União (AGU) e a presidência do Banco Central - chegam a 21 as mudanças em relação ao primeiro ministério, empossado em janeiro de 2019.

Além do presidente e do vice, Hamilton Mourão, só não houve mexida com os ministros da Economia (Paulo Guedes), da Agricultura e Pecuária (Tereza Cristina), do Gabinete de Segurança Institucional (general Augusto Heleno), de Ciência e Tecnologia (astronauta Marcos Pontes), da Mulher, Família e Direitos Humanos (Damares Alves), do Meio Ambiente (Ricardo Salles), Infraestrutura (Tarcísio de Freitas) e Minas e Energia (almirante Bento Albuquerque).

Se o Brasil quiser aproveitar a troca de Ernesto Araújo pelo embaixador Carlos Alberto França, que tem mais livre trânsito na União Europeia (seu nome foi recém aprovado no Senado como embaixador do Brasil na França, para restabelecer canais de negociações com os Estados Unidos de Joe Biden, a União Europeia, a Índia e a China, para facilitar a compra de vacinas e uma nova agenda construtiva para o meio ambiente, seria o caso de troca também o ministro Ricardo Salles, que está com o filme queimado nos EUA e EU.

Rotatividade em Saúde e Educação

Os ministérios mais alterados são exatamente os que recebem mais verbas do Orçamento Geral da União: Saúde e Educação. Em plena pandemia da Covid-19, a pasta da Saúde deu posse na semana passada ao 4º gestor, o médico cardiologista Marcelo Mendonça, que sucedeu a gestão de 10 meses do general Eduardo Pazuello. Este sucedeu, em maio do ano passado, ao médico Nelson Teich, que ficou só 28 dias no cargo, após substituir Luiz Henrique Mandetta, empossado em janeiro de 2019. Ambos defendiam medidas de isolamento e máscaras, o que desagradou ao presidente Bolsonaro.

Na Educação foram também quatro ministros. O colombiano/brasileiro, Ricardo Vélez Rodrigues, durou dois meses e trocou nomes e métodos no ME. Foi substituído pelo polêmico e ineficiente Abraham Weintraub, demitido em maio de 2020. Em 25 de junho tomou posse o mais breve ministro: Carlos Decotelli foi afastado cinco dias depois, quando foram constatadas inconsistências em seu currículo. Três semanas após tomou posse o 4º ministro, Milton Ribeiro, que acaba de perder a secretária de Educação Básica.

Os mais breves

O ministro que durou menos tempo foi o advogado Gustavo Bebianno, que foi um dos escudeiros do candidato Jair Bolsonaro mas deixou a Secretaria-Geral do Governo em 18 de fevereiro de 2019, por intriga das hostes bolsonaristas, a começar pelos filhos 02 e 03. Mas a baixa de maior repercussão veio em junho de 2019: o general Carlos Alberto Santos Cruz foi afastado da Secretaria de Governo por uma intriga do “gabinete do ódio”, que ele atribuiu partida do filho 02, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-Rio), que acessava a conta do presidente e forjou uma troca de desaforos do general Santos Cruz.

Em abril do ano passado, após a saída de Nelson Mandetta, dia 16, veio a demissão do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, alvo de pressões do presidente durante a reunião ministerial de 22 de abril, quando Bolsonaro disse que iria trocar a cúpula da segurança pois “não ia deixar que fodessem meus parentes e amigos”. Trocou o diretor geral da Polícia Federal, da Abin e delegados federais em postos chave e depois o ministro.

O ministério foi entregue ao ex-chefe da AGU, advogado André Mendonça (cotado para uma vaga do STF), que agora vai voltar a comandar a AGU, da qual foi demitido o advogado José Levy, que não assinou a petição do presidente ao STF, pedindo a revogação de atos de restrição de atividades e da circulação de pessoas de governadores e prefeitos. A petição foi recusada pelo ministro do STF, Marco Aurélio Mello, por “inépcia – o presidente da República teria de ser representado pela AGU. André Mendonça voltará à AGU e pode ir para o STF em junho quando Marco Aurélio Mello, atual decano do Supremo, se aposentará, ao completar 75 anos

Para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, foi indicado o delegado de Polícia Federal, Anderson Torres, atual Secretário de Segurança do DF. Além da total confiança do presidente Jair Bolsonaro, o delegado tem relacionamento próximo com o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), o filho 01, que estão sob investigação do caso das ”rachadinhas”, quando era deputado da Alerj. Pode-se fechar o cerco de proteção à família presidencial.

Acerto com o Congresso

A nomeação da deputada federal (PL-DF), Flávia Arruda, para a Secretaria de Governo, na vaga deixada pelo general Luiz Eduardo Ramos, que vai participar de uma dança de cadeiras nos ministérios localizados no Palácio do Planalto, assumindo a Casa Civil, no lugar do general Braga Neto, que deve ser deslocado para o Ministério da Defesa, abre um forte canal direto com o Congresso. Além de ser casada com o ex-governador e senador pelo DF, José Roberto Arruda, a deputada, presidente da Comissão Mista do Orçamento, tem interlocução direta com a Câmara e Senado e conhecimento das verbas disponíveis para negociar com deputados e senadores.

A grande incógnita é o que pode acontecer com as cúpulas das Forças Armadas às vésperas de 31 de março. Desde a redemocratização do país, os discursos de celebração do golpe militar de 1964, ficaram discretos. Jair Bolsonaro quis ressuscitar o ar de celebração “contra a ameaça comunista”. No ano passado, em função da decretação do Estado de Calamidade Pública contra a pandemia da Covid-19, as cerimônias foram suspensas pelo comandante do Exército, Eduardo Pujol, respeitadíssimo, e o ministro da Defesa, Fernando de Azevedo e Silva determinou o mesmo às demais forças.

Este ano, com o recrudescimento dos casos e quase 315 mil mortes, não haveria qualquer celebração ou manifestação. Aguarda-se se vai haver mudanças nas Ordens do Dia, que poderiam indicar um rumo mais assertivo do presidente da República, Jair Bolsonaro, que é legalmente comandante em Chefe das Forças Armadas, exercendo poder de mando direto sobre as armas.

Mas como dizia Dom Fabrízio Salina (interpretado por Burt Lancaster) em “Il Gattopardo”, a seu sobrinho, o Príncipe Tancredi (interpretado por um Jovem Alain Delon, que faz par com uma belíssima Claudia Cardinalli), na imortal obra de Tomasi di Lampedusa, levada ao cinema por Luchino Visconti: “É preciso mudar sempre, para tudo continuar como está”. Bolsonaro será capaz de mudar a si mesmo? Só se for para continuar o Bolsonaro de sempre...