Sob lentidão de vacinas, é tempo de alta de juros, diz Itaú

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Boas e más notícias previu nesta 6ª feira, 12 de fevereiro, o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú para as principais economias do mundo.

As boas notícias não chegam a ser tão boas assim, mas indicam melhora ou desaceleração das crises. E os juros já podem subir em março, por aqui.

O Itaú criou no Departamento Econômico, núcleo para acompanhar a Covid-19 no Brasil e no mundo, que agora segue com lupa a marcha da vacinação.

“A oferta global de vacinas aumentará significativamente no 2 º e 3º trimestres de 2021. A Europa e os mercados emergentes estão atrasados nesse sentido, mas conseguirão avançar”, assinala o estudo.

Mas “os riscos associados à eficácia das vacinas contra novas variantes do coronavírus são maiores nos países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos”, adverte o Itaú.

O banco elevou “as projeções de crescimento do PIB nos Estados Unidos para 6,7% (de 5,5%) em 2021 e 4,2% (de 3,0%) em 2022, devido ao maior impulso fiscal”.

Mas a “inflação deve aumentar, levando o Federal Reserve a começar a retirar estímulos em 2022 e elevar os juros no 1º trimestre de 2023, ou antes”.

Na Europa, as “medidas de isolamento social ainda restringem a atividade no 1º trimestre deste ano, mas a aceleração das campanhas de vacinação no 2º trimestre deve permitir a reabertura da economia”.

Na China, a “economia avança em direção a um pouso suave, com retirada gradual de estímulos”. O Itaú projeta crescimento do PIB de 8,5% este ano (vindo de 2,3% em 2020) e 5,0% em 2022.

A má notícia é a alta de juros

“Esperamos alta das taxas de juros dos títulos do Tesouro americano com prazo de 10 anos para 1,70% (projeção anterior: 1,55%) em dezembro deste ano e para 2,30% (anteriormente 1,80%) em dezembro de 2022”.

Isso vai impactar o custo de captação de recursos no exterior por bancos e empresas brasileiras e vai obrigar o Banco Central (Copom) a calibrar os juros daqui para o Brasil não ficar em desvantagem.

Para o Itaú, o dólar deve permanecer contido em 2021, com o crescimento global sincronizado e o Fed em compasso de espera”.

Entretanto, para 2022, o Depec Itaú espera “um fortalecimento do dólar (valorização de cerca de 4% contra uma cesta ampla de moedas, com o euro chegando a 1,15 por dólar e a moeda chinesa a 6,75 yuan por dólar)”. A previsão do Itaú é de que o Fed vai preparar os mercados para a elevação de juros no início de 2023.

Copom pode elevar juros em março

O cenário para a América Latina não é uniforme quanto às taxas de juros.

No Brasil, “as pressões inflacionárias mais intensas do que no restante da região devem levar ao início do ciclo de alta em março” [o Comitê de Política Monetária do Banco Central se reúne dias 16 e 17 de março].

Espera-se que até lá haja uma definição quanto ao valor e à duração da volta do Auxílio Emergencial para reativar a economia e evitar o agravamento da pobreza. O mais importante, porém, é a garantia de avanço na vacinação.

Hoje não há doses para garantir a 2ª dose de quem já foi vacinado (no caso da CoronaVac o intervalo é de 28 dias, e a da AztraZeneca é de três meses) e a continuidade da vacinação para pessoas com menos de 80 anos. O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello admite que 50% poderão ser vacinados no 1º semestre (até fim de junho). Os outros 50%, até o fim do ano.

Mesmo com Covid em alta, México e Colômbia vão baixar juros

Para se ver que nem sempre o tamanho da crise da Covid-19 dita os rumos da economia, México e Colômbia, que, proporcionalmente às populações, têm mais mortes que o Brasil, estão baixando os juros (ontem, o Banco Central do México – Banxico, reduziu em 0,25 ponto percentual a taxa básica, para 4% ao ano e deve fazer novos movimentos, prevê o Itaú) e devem continuar em 2021.

O México, com 127,5 milhões de habitantes, registrava hoje 171 mil mortes, um índice de 0,96 por cada 100 mil habitantes. Os Estados Unidos, com 239 milhões de habitantes, acumulavam 475 mil mortes, índice de 0,84 por cada 100 mil habitantes. O Brasil, com 212,5 milhões, tinha 236,2 mil mortes, índice de 0,51 por 100 mil habitantes.

O Reino Unido, com 115,5 mil mortes, tinha taxa de 1,13 (a mais elevada entre as grandes economias mundiais). Era seguido pela Espanha, que com 64,2 mil mortos para uma população de 47 milhões de habitantes, tinha o 2º pior índice entre as grandes nações europeias (1,04).

Índice de 2,65 mortos por 100 mil do Rio é recorde

O pior índice mundial é agora o de Portugal (1,95 por 100 mil habitantes), decorrente de um total de 14,9 mil mortes para um total de 10,3 milhões de habitantes. A Franca, com 80 mil mortos, tinha índice de 0,68 por ‘00 mil cidadãos e a Itália, com 92,7 mil mortes, registrava índice de 0,59.

A comparação de Portugal com o município do Rio de Janeiro, de área bem menor, onde foram registradas, até ontem (11 de fevereiro), 17,8 mil mortes por Covid-19 para uma população de 6,7 milhões, é alarmante: o índice do Rio é de 2,65 por cada 100 mil habitantes. Bate qualquer índice nacional apurado pela Universidade John Hopskins.

Embora com população de 48,7 milhões de habitantes (um pouco menor que a da Espanha), a Colômbia era o terceiro país latino americano com mais mortes - 56,9 milhões -, segundo a universidade americana, e um índice de 0,53 por 100 mil habitantes. A Argentina, com 49,9 mil mortes para 43,7 milhões de habitantes, tinha índice de 0,38 por 100 mil habitantes. Com 43 mil óbitos, o Peru tinha o pior índice depois do México (0,59 por 100 mil, igual ao da Itália).

Erro na gestão de estoque de alimentos gera alta de juros

Vale lembrar que a intensidade dos impactos econômicos da Covid-19 não foi muito diferente nos países da América Latina. Mas o paradoxo é que a alta de 14,0% dos Alimentos e Bebidas no Brasil em 2020 foi a maior da América Latina. E justamente no país que se orgulha de ser o “celeiro do mundo”.

Estimulados pela escalada do dólar, que chegou a subir 40% até outubro, e sem qualquer precaução do governo (que adotou o mais idiota e desatualizado “laissez faire”, sem garantir estoques reguladores mínimos, os produtores e grandes tradings exportaram tudo no auge da pandemia.

Quando o governo acordou na virada de agosto para setembro, era tarde. Arroz e óleo de soja sumiam das prateleiras dos supermercados ou subiam mais de 50% e 70% (no fim do ano subiram 76% e 103%).

Para coroar a vergonha da má gestão, diante da falta de estoques pela exportação de quase tudo, o Brasil teve de zerar as alíquotas para importar a preço razoável arroz, soja em grão para fazer óleo, milho e leite em pó. Não sem que os produtores domésticos agora reclamem da concorrência externa...

Auxílio emergencial na conta de luz

Enquanto o Congresso não aprova o Orçamento de 2021 e a nova PEC da Calamidade Pública para renovar de março a junho (pelo menos) o Auxílio Emergencial (o governo quer emagrecer em relação aos R$ 300 pagos de outubro a dezembro, que já encolhera 50% frente aos R$ 600, pagos de abril a setembro), nova ideia circula nos gabinetes de Brasília para aliviar as contas de luz de milhares de pequenos e médios empresários brasileiros.

Semelhante ao refinanciamento das folhas de pagamento pelo BNDES, visando a manutenção do emprego no começo da pandemia, em março-abril de 2020, o mecanismo prevê um gasto de R$ 77 bilhões ao longo do ano.

Agora, haveria financiamento direto das contas de luz pelo BNDES junto às quase 60 distribuidoras de energia do país, que mensalmente recolhem E$ 25 bilhões junto a 87 milhões de consumidores de todos os tamanhos e classes.

O setor produtivo, industrial e comercial (e os grandes consumidores residenciais), já em dificuldades, está ameaçado pela cobrança da bandeira amarela ou vermelha, que onera a cada 100 KWH hora a mais consumido. E a ameaça é concreta, a menos que chova bastante acima da média até a primeira quinzena de março (o que pode causar danos e mortes).

Na bandeira verde, de abril a novembro a conta foi normal. Iria até dezembro, mas a redução no nível dos reservatórios, devido à forte estiagem, ainda não compensada pelas chuvas insuficientes, levou a Aneel a suspender a ajuda em dezembro, com a cobrança da bandeira vermelha 2, que acresce em R$ 6,24 cada 100 KWH consumido a mais. Em janeiro e fevereiro veio a bandeira amarela (R$ 1,50 de acréscimo a cada KWH). O temor é de que a partir de março, com a necessidade de da energia de termoelétricas a gás ou a óleo, de custos mais altos, entre a bandeira vermelha 1 (R$ 3 por cada KWH de aumento do consumo), e a temida 2, tornando os gastos de energia inviáveis.

Uma conta preliminar, apresentada ao general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Secretaria de Governo e responsável (até aqui) pela articulação com o Congresso, situa o benefício entre R$ 9 mil e R$ 15 mil por consumidor.

Deste total, a concessionária abriria crédito de R$ 3 mil para pagamento cinco primeiras contas de energia contempladas (considerando os limites mínimos e máximos por consumidor). A diferença restante seria disponibilizada na conta corrente bancária do consumidor cadastrado no débito automático.

Tudo para manter a roda girando

Manter a roda da economia girando vai reativar a produção, o consumo, o emprego e a arrecadação de impostos, compensando os gastos, sustentam os responsáveis pelo estudo.

No passado, o calote dos consumidores espetou uma conta de mais de R$ 15 bilhões no Tesouro e demorou anos para a solução de dívidas entre a Eletrobrás, que controlava distribuidoras (já privatizadas) no Norte e Nordeste, e a Petrobras, a fornecedora de gás, óleo combustível ou diesel.