
IESA RODRIGUES
Bastidores do que vestimos e calçamos
Publicado em 27/02/2025 às 16:05
Alterado em 27/02/2025 às 16:05
A situação do consumo de moda, ou seja, vestuário, calçados, acessórios, continua estranha. Esta coluna tem um sentido mais sério, de bastidores de movimentos que buscam soluções para um mercado que cresce menos de 2%. Um exemplo fácil de reconhecer: o que um pré-adolescente quer vestir? Uma camiseta dos Roblox. Nada de Homem Aranha, Super Homem, estes heróis amados pelos pais nerds. São personagens de jogos, a brincadeira que tirou a garotada das ruas e preocupa pelo excesso de exposição às telas. Outro exemplo, já citado várias vezes: a concorrência da Ásia. Ao contrário do tempo em que nossas marcas interessavam ao mundo e eram exportadas em tamanhos errados, cores fora dos pedidos ou atrasavam nas entregas, apesar dos esforços da APEX, os asiáticos aprenderam a fazer direito, com design bom, em materiais razoáveis (usando o algodão que compram do Brasil, o maior produtor), preços muito abaixo dos cobrados por outros produtores – discute-se se é trabalho escravo ou se ninguém tira férias. Mas na verdade, além do consumo não querer mais saber muito da sustentabilidade, o preço final das peças e a entrega cada vez mais rápida, com a etiqueta indicando que veio realmente de cidades em províncias chinesas, contam nas decisões.
Começo pelo têxtil
Uma indústria que já foi poderosa no Rio de Janeiro, onde a fábrica Bangu reunia estampas lindas a um glamour típico carioca, a Deodoro abastecia com algodões e chitas, acaba de reunir empresas importantes como a The Lycra Company, a Vicunha e a Capricórnio na Febra Têxtil. O evento, organizado por Hélvio Roberto Pompeu, reuniu não só as propostas das tecelagens, como abriu espaço para inovações de design e prêmios para concorrentes que seguiram o tema inspirado em Vivi Haydu, que se destacou como diretora da Fenit. O que interessa mais próximo do dia-a-dia de quem quer saber destes bastidores? A feira realizada em São Paulo trouxe algumas novidades importantes:
Moda Inclusiva, um dos destaques da Febra Textil 2025 Foto divulgação
A primeira, segundo minha avaliação, é a Moda Inclusiva, em parceria com a Casa de Criadores, semana de moda autoral assinada pelo competente André Hidalgo. Um desfile mostrou peças com estilo e funcionalidade, graças aos tecidos inteligentes e às modelagens que atendem às necessidades de pessoas com deficiência.
Participação da Vicunha, com os tecidos com água de reuso Foto: divulgação
Outra iniciativa, estranha à primeira vista, mas válida pelo resultado, da Vicunha. Seus tecidos promovem a redução do impacto ambiental pela utilização de 100% de água de reuso no processo produtivo do denim e brim. Esta água vem da estação de tratamento VSA, inaugurada em maio de 2024, em Pacajus (CE). Ela purifica o esgoto doméstico urbano para uso industrial, eliminando a necessidade de captação de água de mananciais naturais. Quem diria, que vestiríamos belos jeans que economizaram águas graças ao uso de esgoto tratado? A linha Regen utiliza algodão cultivado com práticas agrícolas regenerativas (adubos?), também reduz a quantidade de água usada e melhora a saúde do solo
Na Capricórnio temos a nova cor Dark Blue, e um acabamento inovador, o Glow Coating. O fundo azul se mistura com o black. Para quem ainda busca um 100% algodão, a proposta é o Algarve Light Black Glow, que segue as tendências de brilho e pedrarias. Mais realista, com 77% de algodão e 23% de poliamida, o artigo Eva traz conforto, não retém odores e por conta da poliamida tem um stretch mecânico que deixa o tecido mais agradável.
O Fashion Revolution Brasil, movimento ativista de moda, marcou presença com o lançamento do livro digital gratuito “Cânhamo é Revolução”. A obra mostra o potencial do cânhamo como matéria-prima sustentável para a indústria têxtil. Talvez por preconceito, ainda é pouco difundido no Brasil este material, por ser uma variedade da Cannabis sativa. Um elemento que se destaca como uma alternativa promissora devido às propriedades ecológicas e à versatilidade na produção de tecidos.
Esta edição, que marcou a volta do evento a São Paulo, além da participação de empresas importantes, parece estar empenhada em priorizar a capital paulistana como polo lançador. A próxima edição, já marcada para 24 a 26 de fevereiro de 2026, poderia contar com marcas de insumos de outros estados. Desta vez, além de contar com nomes como André Hidalgo, João Braga e Marta Divitiis no júri que premiou Mariana Rosseto com a participação dela na Expotextil Peru, a Febra Têxtil contou com o aval de Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), que assim avaliou o evento:
Fernando Pimentel defende a integração nacional do setor, à frente da Abit Foto: divulgação
“Estamos entusiasmados com a retomada da Febra Têxtil em São Paulo, um marco essencial para a cadeia de insumos têxteis do Brasil. Esta feira é estratégica para consolidar o crescimento do setor, com empresas fornecedoras e compradoras de matérias-primas feitas no País. Essa integração é que fortalece um setor”, declarou Fernando Pimentel, sempre defendendo a nacionalização do setor.
Enquanto isso, os calçados...
Reunião dos fabricantes de calçados contra a pirataria. É assunto sério! Foto: divulgação
No Rio Grande do Sul, estado que não poupa esforços para promover a indústria de couros e calçados, organizando grupos de marcas para eventos internacionais, produzindo feiras e salões como o Inspira Mais, as reuniões têm outro motivo preocupante: a pirataria. Ou seja, as cópias ilegais (existe cópia legal?). De acordo com o estudo, para 51% das 250 empresas entrevistadas o comércio digital aumentou a prática da pirataria. Em 2014, o prejuízo para fabricantes nacionais era de R$ 100 bilhões, número que passou para R$ 468,3 bilhões em 2024
Uma das marcas mais atingidas é a excelente brasileira Olympikus, mas há cópias malfeitas de Nikes, Adidas, Rainha. Segundo um dos treinadores mais experientes do Rio de Janeiro, também há o outro lado: a copia ser melhor do que o original, com acabamento mais requintado, apesar de feito em material de pior qualidade. E o seguinte: quem disse que estas cópias são mais baratas?
Por fim, os desfiles estranhos
"Coragem", foi como Marc Jacobs definiu esta coleção considerada distópica pelo New York Times Fotos: reproduções
Luiz Dale, um amigo modelo, que já vestiu muitos ternos Armani, Vila Romana, Saint Laurent nos tempos que eu fazia editoriais para a revista Desfile, perguntou um tanto indignado, o que foi o desfile do Marc Jacobs. Olhei as fotos, vi o vídeo e respondi, por uma iluminação na hora. “Luizinho, o Marc Jacobs, sempre muito ligado num jeito grunge, street urbano, apresentou modelos estufados, modelagens absurdas, é verdade. Sabe por quê? É como no Instagram, você tem que estar presente nos stories, para os seguidores não te esquecerem. A moda vive este momento story, em que vende pouco, mas tem que chamar a atenção para preservar a marca.” A definição do próprio Jacobs – atualmente um jovem criador de 61 anos) foi perfeita; uma coleção de coragem.
Desculpem, não foi uma coluna para vestir ou calçar. Não sei vocês, que conseguiram ler até aqui, mas eu adoro um bastidor, de saber a razão de um tecido ter stretch mecânico ou um grunge virar conceitual.
Agradeço a colaboração da Yuko Suzuki, companheira de décadas nos bastidores da moda, editora do World Fashion