Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Trump recua no tarifaço no dia D de Bolsonaro
Publicado em 16/11/2025 às 08:01
Alterado em 16/11/2025 às 08:56
Abatido e desgastado, Trump assina o fim do shutdown Foto: Brendan Smialowski / AFP
Durou pouco mais de 100 dias. Mas, custou muito caro aos consumidores americanos, que reagiram votando nos democratas, e à popularidade do presidente Trump, que piscou primeiro, a sua tentativa de interferir, por influência do filho 03, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), no julgameno do ex-presidente Jair Bolsonaro, mediante a chantagem de ameaçar o Brasil com um tarifaço. Em carta ao presidente Lula, em 9 de julho, pela sua rede “Truth Social”, Donald Trump exigia a suspensão “IMEDIATAMENTE” do julgamento de Bolsonaro, caso contrário imporia tarifaço extra de 40% a produtos brasileiros que seriam taxados em 50% em agosto.
Após uma clivagem, em 6 de agosto, que excluiu cerca de 700 produtos de alto interesse para a indústria americana (sobretudo peças e insumos para a aviação) e bens de consumo do qual os Estados Unidos são muito dependentes do Brasil, como o suco de laranja que supre mais de 70% do mercado), sem interrupção no julgamento do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro foi a julgamento assistido por seus advogados de defesa em julho, e o tarifaço atingiu o café, carne, açúcar, etanol, castanha do Pará, açaí, banana e manga. O impacto sobre o consumidor americano desgastou Trump.
Mesmo com sanções a ministros do STF, à frente o relator Alexandre de Moraes, e ao governo Lula, por pressão do 03 e do economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, general João Figueiredo (em seu governo, sob a gestão de Delfim Neto na Economia, o país quebrou e foi ao FMI), o Supremo não recuou e o Brasil manteve a soberania.
Por ironia, na sexta-feira, 14 de novembro, dia em que se esgotaria, às 23h59, o prazo para a proclamação da Primeira Turma da Suprema Corte do veredito sobre Bolsonaro e os outros seis réus do núcleo principal da trama golpista, com rejeição por quatro a zero das alegações das defesas, o que abre espaço, após a publicação do acórdão [não o acordão com que sonhavam a oposição bolsonarista e o “Centrão”, materializado no PL da Impunidade rejeitado pela opinião pública, que foi às ruas, com blindagem geral das falcatruas dos congressistas], para a prisão do ex-presidente em ambiente carcerário, Trump deu uma primeira guinada no tarifaço.
Trump anunciou uma primeira redução de 10% na tarifa extra sobre o café, a carne, o açaí e uma ampla lista de produtos exportados pelo Brasil. E, para coroar o tiro pela culatra, no mesmo dia 14, a Primeira Turma do STF aceitou a denúncia do procurador geral da República, Paulo Gonet, contra o filho 03, por tentar obstruir o julgamento de Bolsonaro (motivo de sua prisão domiciliar).
Jornais dos EUA veem guinada de Trump
Os jornais americanos, à frente o “New York Times” e o “Wall Street Journal” , noticiaram que o “Presidente Trump implementa grande reversão das tarifas de alimentos”. Segundo o NYT, o presidente decidiu reduzir em 10% os impostos sobre carne bovina, café e dezenas de outros produtos agrícolas e alimentícios, marcando uma reversão significativa de suas chamadas taxas recíprocas, enquanto procura maneiras de lidar com as preocupações dos americanos sobre o custo de vida”. O WSJ anunciou que “Trump emitiu uma ordem executiva modificando as taxas recíprocas que impôs a praticamente todos os parceiros comerciais em agosto, isentando em 10% mais de uma centena de alimentos comuns, incluindo frutas, nozes e especiarias". Segundo o WSJ, “o governo Trump disse que reduziria as tarifas na tentativa de tornar esses produtos básicos mais acessíveis”. Aumentos acentuados nos preços do café, carne bovina e banana no ano passado alimentaram a frustração generalizada com o aumento do custo de vida. Os planos do governo Trump de reduzir algumas tarifas sobre esses produtos podem aliviar a pressão, dizem economistas. Depois da derrota para os democratas na semana passada, há campo para mais reduções de tarifas nas negociações bilaterais com o Brasil.
Café, carne moída e banana lideram inflação
Não é só no Brasil que os preços do café subiram (a perda da safra do Vietnã, o segundo produtor do mundo, concentrado no café robusta, estreitou o mercado). Nos EUA, segundo o WSJ, “os preços médios de varejo do café torrado moído subiram mais de 40% sobre setembro do ano passado, de acordo com o “Bureau of Labor Statistics”. Os preços médios de varejo da carne moída e das bananas aumentaram 11,5% e 8,6% desde setembro de 2024 – bem à frente da taxa de inflação geral de cerca de 3%”, diz o WSJ.
Para se ter ideia da importância da carne bovina de dianteiro, preferencialmente exportada pelo Brasil para os EUA, para uso na confecção da carne moída dos hamburguers, enquanto o preço da arroba do dianteiro oscila entre US$ 58/60 no Brasil, é quase o dobro (US$ 120/130) nos EUA. Com uma grande diferença: a carne brasileira é mais magra e mais saudável.
A química certa
O azar de Eduardo Bolsonaro e todo o clã Bolsonaro na tentativa de convencer o governo americano de que o ex-presidente é vítima de uma “caça às bruxas” por parte do ministro Alexandre de Moraes, do STF, é que, se o assunto foi assimilado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, da ultradireita americana, foi Donald Trump quem percebeu, nas primeiras semanas de setembro, os ruídos do tarifaço no custo de vida dos americanos. Bem como os entraves à cadeia produtiva, relatados pelos empresários norte-americanos e brasileiros que operam nos Estados Unidos, como os irmãos Batista, maiores processadores de carne do mundo, que lá têm várias filiais da JBS-Friboi.
A casa começou a cair para Eduardo Bolsonaro e sua atuação lesa-pátria em dobradinha com Paulo Figueiredo, quando Trump prestou atenção ao belo, lúcido e corajoso discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro. Como o Brasil, por tradição, desde os anos 40, é o primeiro país a discursar, seguido pelos Estados Unidos, Trump ainda cruzou com Lula no acesso ao púlpito, e trocaram 39 segundos de “boa química”, segundo Trump. Começava ali, em 23 de setembro, a virada no relacionamento entre os governos Trump e Lula. Ainda esta semana, Marco Rubio e o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, se encontraram no Canadá, na reunião do G7.
Além de negociar mais baixas de tarifas, falta os EUA reconhecerem que o Brasil é deficitário no comércio bilateral, e mais ainda quando o relacionamento inclui os serviços, “royalties”, direitos de propriedade e fluxos financeiros que fazem parte do escopo da Organização Mundial do Comércio, cujo esvaziamento decorreu do equívoco maior: o tarifaço (com sucessivos recuos).
O fracasso do tarifaço
Como lembrou o NYT, o tarifaço foi anunciado em 2 de abril como a principal medida para os Estados Unidos recuperarem a hegemonia econômica nos planos da MAGA, no pomposo “Liberation Day”, no qual o presidente exibia uma tabela semelhante a um cardápio de porta de restaurante popular, listando os países prioritários nas sanções tarifárias. A China era o principal alvo. Mas as reações internas das grandes corporações americanas, pela interrupção da cadeia de produção, levaram o governo a adiar para maio e junho. Depois de ameaçar a China com 100%, em julho, Trump cedeu. A China retrucara, suspendendo exportações (inclusive de terceiros países) de produtos que contivessem materiais críticos de terras raras chinesas. Isso afetou o complexo industrial-militar e a estrutura de defesa dos EUA. Agora, com as tarifas suspensas, as negociações se estenderão por um ou dois anos.
Mas a principal razão do fracasso e sucessivos recuos de Trump foi que o tarifaço afetou o custo de vida dos americanos já no café da manhã: o café ficou mais caro, o açúcar, o suco de laranja (primeiro produto a ser isentado em julho), os ovos já estavam caros antes do governo Trump, pelo impacto da gripe aviária que dizimou parte do plantel de galinhas poedeiras. Por fim, o preço da carne de hamburguer disparou.
Brasil é solução para os EUA
Em boa parte, esses produtos só podem ser supridos em quantidade e qualidade pelo Brasil. Que é parte da solução e não um problema ou ameaça para os Estados Unidos, como “venderam” a Marco Rubio e sua equipe os conspiradores Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. A acachapante derrota dos republicanos nas eleições regionais na semana anterior alertou para o risco de perda da maioria na Câmara e no Senado nas eleições de renovação de parte do Congresso em 2026.
Embora tenha dito que não “há mais espaço para reduções tarifárias”, Trump já percebeu, há algum tempo, o erro da estratégia, e está fazendo a guinada gradativa para não declarar o fracasso. Sua imagem desgastada e cansada no dia da suspensão do "Shutdown" era o recibo da derrota eleitoral para os democratas, a quem acusara como responsáveis pela paralisação das atividades federais, mas o eleitorado respondeu de forma inversa.
E a meia-volta volver no Brasil
O que dirão agora o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e outros acólitos do bolsonarismo que saíram comemorando e até usando o boné da MAGA quando Trump anunciou o tarifaço sobre o Brasil, se não suspendesse o processo contra Bolsonaro (na instância do Poder Judiciário)? Embora governe o maior estado do Brasil, sede das empresas mais afetadas pelo tarifaço americano, Tarcísio de Freitas só começou a recuar quando as lideranças da indústria paulista lhe cobraram uma mudança de posição em defesa dos interesses nacionais. Já era tarde para quem se abrigou embaixo de uma enorme bandeira americana no 7 de setembro, na Avenida Paulista, e teve de engolir em seco quando Trump elogiou Lula duas semanas depois, na ONU, autorizando as negociações entre os dois países.
Vale dizer que, embora os exportadores de café, de frutas frescas como as mangas e uvas do São Francisco, de peixes de Santa Catarina e outros pontos do país, do açaí, do mel, da carne, além de madeiras e produtos industriais, tivessem sofrido pesados prejuízos, a capacidade de resiliência do Brasil está sendo maior do que a dos Estados Unidos. O Brasil, que tem a China como maior comprador, não se acomodou e saiu pelo mundo, à frente o presidente Lula, e em missões empresariais com participação de ministros, em busca de novos mercados, como a Indonésia (quarto país mais populoso, com 286 milhões de habitantes) e a Malásia. E também ampliou os negócios com o Japão.
Já os EUA, não têm muita alternativa para encontrar volumes de carne, café, mel, madeira serrada, peixes, açaí, frutas e equipamentos que integrem a cadeia produtiva das multinacionais que operam no Brasil e exportam para lá. O resultado foi o salto da inflação, temida pelo presidente do Federal Reserve Bank, Jerome Powell, que era cauteloso quanto à baixa de juros, fixação do grande especulador imobiliário que ora responde pela maior nação do planeta.