Por Coisas da Política

WILSON CID - [email protected]

COISAS DA POLÍTICA

Oportunidade perdida

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Publicado em 11/11/2025 às 16:59

Alterado em 11/11/2025 às 16:59

Donald Trump e Nicolás Maduro Fotos: reproduções

O governo americano não fez a gentileza, mesmo como um mero gesto diplomático, de considerar a recente proposta brasileira de intermediar acordo entre Washington e Caracas, desejável, na mesma proporção em que as relações entre as duas capitais vão se deteriorando cada vez mais. As possibilidades de intermediação estreitam-se e avançam as ameaças de força militar no Caribe. Em recente encontro com o presidente Trump, na Ásia, Lula ofereceu-se, à espera de gesto acolhedor, mas o colega americano fez ouvido de mercador, numa evidente sinalização de que ações pacificadoras não interessam no presente momento, pois o real objetivo é a derrubada de Maduro, tomando-se como oportunidade e pretexto as profundas ligações dele com o narcotráfico. Sabedor da oferta, o ditador vizinho também calou, mais animado pela proteção das boas relações já consagradas com Moscou e Pequim, capitais que roncam tão poderosas como Washington. O que não evitou que, na semana passada, Caracas manifestasse gratidão pelo esperado apoio que chegou de Brasília.

As duas capitais em conflito, sem abrir mão de seus interesses e convicções, podiam ter aceito, de imediato, o gesto brasileiro, ainda que apenas para usar o tempo a seu favor; e pudessem ganhar fôlego para prosseguir as divergências, com tempo razoável para tentar sensibilizar outros governos latino-americanos em torno de suas causas. A expectativa de o interesse geral parece simples, mas real: se a crise no Caribe desabar para incursões militares, não haverá quem possa beneficiar-se da instabilidade continental, as relações ficam em suspenso e os negócios afetados. Eis o que permite estranhar que outros países da região tenham preferido manter-se equidistantes, como se a eles nada afetasse o problema em evolução.

(Em relação ao Brasil, recusado o espaço que intermedeia, o presidente se viu na contingência de oficializar apoio ao venezuelano acossado, menos em nome de velha amizade, mas para ceder, sensível, às simpatias da esquerda brasileira pelo ditador. Decisão que tem um custo, porque o aceno amistoso vem num momento em que gostaríamos de preservar a “química” com Trump, de quem nos distanciamos um pouco mais. Se tomamos partido, sepultamos o papel de árbitro da contenda).

Não faz sentido dispensar os préstimos da diplomacia brasileira para superar problemas no continente. É a História que recomenda, em cima de incontáveis exemplos, que consagraram homens da envergadura e competência de um Rio Branco ou Nabuco. Nossos diplomatas especializaram-se na superação de grandes conflitos. Não foi diferente o que se deu com Melo Franco, ao construir o reatamento das relações entre Uruguai e Peru, interrompidas desde dezembro de 1930, como também no acerto da fronteira das Guianas. Não se esqueçamos dele na mediação da Questão de Letícia. Essas e várias incursões nacionais foram bem sucedidas. Muito antes, já o Visconde de Cavalcânti pontificara na complicada demarcação da fronteira com a Bolívia. O Brasil sempre foi um bom fazedor de pazes. Talvez pudesse reeditar esse talento se, agora, tentasse levantar bandeira branca entre Venezuela e Estados Unidos.

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