Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
'Nada será como antes, amanhã'
Publicado em 09/11/2025 às 08:13
Alterado em 09/11/2025 às 08:34
O presidente Lula fez questão de posar para foto com todos os voluntários que estão trabalhando na COP, conferência que se apresenta mais expressiva que a anterior - pelo local, em plena floresta, e pelas presenças de importantes chefes de estados Foto: Ricardo Stuckert / PR
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Ainda tocado pela morte prematura do genial Lô Borges, 73 anos, um dos responsáveis pelo álbum duplo “Clube da Esquina”, de 1972, que foi devidamente reconhecido como um dos melhores discos já produzidos no Brasil e no mundo por uma pesquisa internacional, uso alguns versos da canção de Milton Nascimento e Lô Borges, com letra de Ronaldo Bastos, para fazer uma pequena rememoração de que como, na vida e na política, os fatos são como nuvem – a cada momento mudam de configuração.
Há uma semana estávamos estarrecidos com a “matança”, como bem caracterizou o presidente Lula, de 121 pessoas na invasão das polícias civil e militar do estado do Rio de Janeiro nas comunidades do Alemão e da Penha. A operação, tachada de "um sucesso" pelo governador do RJ, Cláudio Castro, causou as mortes de 117 suspeitos de narcotráfico e de quatro policiais (os únicos lamentados pelo governador). Vale lembrar que as polícias saíram a campo para cumprir 93 mandados de prisão expedidos pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Entretanto, dos 99 presos (embora alguns tivessem outros mandados de prisão), nenhum constava da lista do MPRJ. Os mandados do MPRJ eram de prisão e não de execução, pois não há pena de morte no país (e, se houvesse, a decisão caberia a um júri popular ou a juízes, não à polícia).
Pois bem, diversas operações foram realizadas esta semana que passou em vários estados do país contra a atuação das facções criminosas, mas para um total de uma centena de presos, as mortes nas operações na Bahia, Ceará, Piauí, Espírito Santo e Mato Grosso são contadas em apenas uma mão. É bem verdade que as comunidades da Penha e Alemão tinham se tornado o enclave nacional do Comando Vermelho, provocado pelo registro de quase metade dos mortos do CV como oriundos de outros estados. Mas o combate ao crime pode e deve ser feito de forma lícita e transparente, sem o atropelo da Lei. A troca de informações entre os órgãos federais e estaduais é fundamental. Bem como o cerco à movimentação financeira do crime, que se apoia da sonegação fiscal. O Banco Central deu sua contribuição ao endurecer contra as “fintechs”, que terão de elevar o capital e não podem operar em “coworking”.
O combate deve ser precedido pelo rastreamento das atividades financeiras que alimentam a máquina dos grupos criminosos, incluindo o tráfico de drogas e de armas, com as quais consolidam o domínio territorial de partes do país. Assim como as milícias, os traficantes passaram a fazer fortuna nas regiões que dominam, pela “venda” de proteção a comerciantes e famílias, além das taxas sobre os “gatos” da Light (no Rio, onde a Enel também é vítima do furto de energia), das comunicações (“wi-fi” e sinais de tv e “streaming”, do “pedágio” da água, do gás e das cestas básicas (cada vez mais exploradas pelos grupos, que reembalam as mercadorias roubadas).
O joio e o trigo
Os fatos da semana mostraram que o combate à criminalidade pode ser feito dentro da lei e sem abuso da força bruta. O governador do Rio de Janeiro, cujo processo de “impeachment” no TSE, face à contratação irregular pelo Ceperj (órgão do governo estadual), de mais de 20 mil cabos eleitorais que facilitaram sua reeleição em 2022, foi suspenso com um pedido de vistas, conseguiu, com o estardalhaço da operação policial que seduziu parte do leitorado, o efeito desejado: brecar o processo político. Mas Cláudio Castro continuou a avançar o sinal, quando procurou o governo Trump para instar a inclusão dos narcotraficantes, que atuam no Rio e em outros estados do Brasil, como alvos do combate das forças armadas americanas, que os enquadram na categoria de “terroristas”. Há que separar o joio do trigo.
Trata-se de um irresponsável salto-twist-carpado, com efeito semelhante à tentativa do clã Bolsonaro de usar o governo Trump como tábua de salvação para brecar o processo do Supremo Tribunal Federal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro como líder da tentativa de golpe no Estado Democrático de Direito, mediante a chantagem do tarifaço contra as exportações brasileiras e sanções contra ministros do STF e do governo Lula (em fase de remoção após o estabelecimento de uma agenda de diálogo entre os governos Trump e Lula).
O julgamento de Bolsonaro e dos outros seis acusados do núcleo principal da trama golpista se encerrou na Primeira Turma do STF na sexta-feira. O relator do processo, ministro Alexandre de Moraes votou contra as objeções da defesa do ex-presidente à condenação de 27 anos e três meses, e foi acompanhado pelos ministros Christiano Zanin, Flávio Dino e pela ministra Carmen Lúcia. O ministro Luiz Fux, única voz que absolveu Jair Bolsonaro das acusações, não votou. Até porque pediu sua transferência para a Segunda Turma, depois da aposentadoria do ex-ministro Luís Roberto Barroso. Em princípio, Jair Messias Bolsonaro pode ser recolhido à Penitenciária da Papuda (DF) a partir do dia 14. Mas a defesa tentará uma última cartada, provavelmente sem sucesso.
Suderj informa: sai Malafaia entra Rodovalho
Jair Bolsonaro está em prisão domiciliar, incomunicável pelas redes sociais e com tornozeleira eletrônica, por medida preventiva para evitar a tentativa de obstrução da Justiça na ação que o STF terminou por condenar o núcleo principal de sete acusados. Proibido de se comunicar com o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (também transformado em réu no processo do STF em que foi arrolado, por obstrução da Justiça, o filho 03, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro - do qual o julgamento pode acelerar a cassação do seu mandato ameaçado por faltas, já que está nos Estados Unidos desde fevereiro, tramando contra o Brasil para tentar salvar o pai), Jair Bolsonaro encontrou um suposto novo guru na orientação evangélica: o pastor Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra. Rodovalho, hoje um dos pastores mais ricos com a empreitada espiritual iniciada há 30 anos, beneficiado por isenção de impostos e perdões de multas da Receita Federal no governo Bolsonaro, visitou esta semana o ex-presidente em sua casa em Brasília e lhe recomendou resiliência e resignação.
Se Bolsonaro vai abandonar a linha agressiva insuflada por Malafaia, só o tempo dirá. Mas vale recordar que tanto o ex-presidente, quando seguiu a orientação de Malafaia no comício de 7 de setembro de 2021, na Avenida Paulista, quanto o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que era acolitado por Malafaia no 7 de setembro de 2025, na mesma Paulista, tiveram de voltar atrás nas críticas contundentes contra o STF, na figura do ministro Alexandre de Moraes. Em 2021, após dizer que não acataria ordens de Moraes, o presidente, temendo ser preso, recorreu ao ex-presidente Temer, que indicou Moraes ao STF, e escreveram uma carta a quatro mãos pedindo desculpas. No julgamento, cobrado novamente por Moraes sobre as acusações que fizera em setembro de 2021, Bolsonaro pediu desculpas ao vivo e em cores na TV Justiça. Pois Tarcísio de Freitas abandonou o modo agressivo em uma semana e se desculpou com Moraes e o colegiado da Suprema Corte.
A COP do multilateralismo
A COP-30, em Belém (PA), perdeu um pouco de sua força pela saída dos Estados Unidos, de Donald Trump, do Acordo de Paris, e pelas ações ostensivas dele negando o aquecimento global e a proteção das florestas, incluindo, em revés. incentivos ao uso de combustíveis fósseis, bem como a ausência do presidente da China, Xi Jinping, representado pelo vice primeiro-ministro Ding Xuexiang. Comparada à última COP-29, em Baku, no Azerbaijão, Belém está ganhando. Em Baku, o Brasil foi representado pelo vice-presidente Geraldo Alkimin. Também não marcaram presença os presidentes dos EUA e da Rússia, Vladimir Putin, apesar da proximidade de Moscou. Também faltaram o primeiro-ministro da Índia, Norendra Modi, e do Japão. E a representação da União Europeia foi igualmente esvaziada, sem a presidente Ursula von der Leyen e o presidente francês, Emmanuel Macron.
Desta vez, em Belém, Macron e Von der Leyen participaram ativamente dos trabalhos iniciais da Cúpula preparatória (e encontros paralelos puderam acelerar as tratativas para o sonhado acordo comercial da União Europeia com o Brasil e o Mercosul). E o Reino Unido esteve em peso, representado pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e a presença luxuosa do príncipe William, futuro herdeiro do trono inglês. Outras presenças coroadas foram o rei Carl I e a rainha da Suécia, a brasileira Silvia Sommerlath, e o príncipe Albert, de Mônaco.
Mas o que está marcando a diferença nesta COP são as ações do Brasil defendendo, com brilhantismo, a tradição do multilateralismo na diplomacia brasileira. O Brasil representa o terceiro mundo e os países em desenvolvimento. Um grupo que não pode ser responsabilizado pelos danos que várias civilizações e países causaram ao planeta Terra. Primeiro, ao destruírem boa parte de suas florestas antes da industrialização. Depois, ao liderarem a revolução industrial à base das energias fósseis (como o Reino Unido com o carvão, e os Estados Unidos, com o petróleo).
Se as restrições à exploração de recursos fósseis, como forma de impedir o aquecimento global que já superou os limites previstos no Acordo de Paris, forem seguidas à risca, congelariam ao “status-quo” do atraso a dezenas de países (que tem o agravante da submissão do colonialismo europeu na América Latina, na África e na Ásia). Vale dizer que alguns destes países, como o Brasil, e as demais oito nações que têm áreas da Floresta Amazônica, e as nações de florestas tropicais da África e da Ásia, precisam ser ressarcidos pelo “trabalho” de limpeza da atmosfera terrestre da poluição, causada no Hemisfério Norte pelas chaminés das fábricas, pelos aviões que levantam voo e pelo escapamento dos veículos e navios movidos a derivados de petróleo.
O Brasil repisa o que disse o saudoso Papa Francisco, na encíclica “Laudato Si”: a Terra é uma só e precisa ter as responsabilidades compartilhadas pela sua preservação e da vida humana e dos seres vivos.