Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Encontro na Malásia dá a partida à eleição de 2026
Publicado em 26/10/2025 às 09:05
Alterado em 26/10/2025 às 09:05
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Os meios diplomáticos e políticos estão em suspense, aguardando o desenrolar do primeiro encontro mais demorado entre os presidentes Lula e Donald Trump, em Kuala Lumpur, na Malásia (quando esta coluna estiver sendo lida, provavelmente as conversas já terão terminado). As versões dos dois lados poderão dizer se a “química” inicial de 39 segundos na reunião da ONU, em setembro, vai efetivamente produzir produtos petroquímicos como projetou Lula depois da primeira conversa telefônica entre ambos no começo deste mês. O importante é medir se os dois lados vão cantar vitória e se temas tabus ficarão de fora, como a família Bolsonaro. As diplomacias de Brasil e Estados Unidos trabalham para que ambos os presidentes cedam no tarifaço, mas mantenham algum discurso de vitória com conceções mútuas. A reunião entre a maior potência do Planeta e o país mais populoso e mais importante do Hemisfério Sul ocorre num momento e em um cenário no mínimo curioso.
Antes de chegar à Malásia, que fica no hemisfério Norte, como a EUA, Canadá, México, Europa, Rússia, Índia, China, Coréia e o Japão, o presidente brasileiro fez uma visita de Estado à Indonésia. O quarto país mais populoso do mundo (286 milhões de habitantes) se estende ao longo da linha do Equador por 17 mil ilhas. É o maior país muçulmano do mundo e um grande mercado. Além de oferecer produtos brasileiros em troca de produtos indonésios, Lula quis alinhar com o presidente Prabowo Subianto uma ação em defesa de compensações ambientais dos países ricos na COP-30, em novembro, em Belém. Os dois países têm as maiores florestas tropicais do Planeta, junto com a República Democrática do Congo, na África. Já Trump ampliou as manobras militares supostamente contra o narcotráfico que usa rotas da Venezuela para ilhas do Caribe e o litoral dos Estados Unidos (o maior mercado consumidor) para escoar cocaína e outras drogas produzidas na Bolívia e na Colômbia. O objetivo oculto é desestabilizar a ditadura de Nicolás Maduro.
Buenos Aires não é Brasil
É sensível o tema da interferência americana na América do Sul (neste domingo a Argentina põe à prova o governo de Javier Millei antes de completar dois anos - posse foi em 10 de dezembro de 2023). As eleições legislativas vão renovar metade dos 257 deputados e um terço dos 72 senadores em um Congresso onde o presidente dispõe de minoria governista. O governo Trump deu uma ajuda substancial ao governo argentino, com uma linha de crédito de US$ 20 bilhões, em troca (“swap”) de pesos argentinos. A estratégia, arriscada, foi avalizada pelo secretário do Tesouro, Scott Bensent. O governo Trump comprou a ilusão de Milei de que a Argentina pode voltar a ser grande. Com a pequena escala da população e de sua economia, é missão para Tom Cruise.
Olhando o mapa da América do Sul, onde o controle político da Bolívia acaba de pender à direita, para a economia de mercado, após mais de duas décadas de governos socialistas, o Brasil era parte de uma aposta de Washington num governo de direita em 2026, com grande influência da família Bolsonaro. Trump chegou a comprar, através do secretário de Estado, Marco Rubio, a versão de caça às bruxas ao clã Bolsonaro, vendida nos porões da Casa Branca pelo filho 03, Eduardo Bolsonaro, e o economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o general João Figueiredo, já lá se vão 40 anos!
Em tempo, Washington percebeu que a estratégia adotada para o Brasil, país-chave na sua política externa para a América Latina, teve o efeito contrário do esperado. Em vez de garantir espaço a Bolsonaro em 2026, a pressão acabou fortalecendo Lula, acelerando a guinada do Brasil à Ásia, e o tarifaço provocou incômodos na economia dos Estados Unidos. Daí, a retomada do diálogo com o Brasil ocorre em meio aos esforços do presidente americano para conter o desgaste político interno e exercer mais influência no cenário internacional.
Vamos avaliar as concessões mútuas para uma negociação, que terá sequência para as equipes técnicas dos dois, mas cujas consequências imediatas pode ser o esvaziamento do discurso bolsonarista de perseguição.
Balas perdidas de Lula e do clã Bolsonaro
Quando se esperava que os sucessivos tiros no pé do filho 03, deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que em sua trama contra o Brasil nos Estados Unidos, mirando o STF, em nada alterou a rota do julgamento que condenou o pai Jair Bolsonaro, tivessem provocado um refluxo meditativo no clã, eis que o mais centrado, o filho 01, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), comete um tremendo desatino na última quinta-feira (23).
Ao tomar conhecimento de que as forças armadas americanas bombardearam barcos no Pacífico com traficantes de drogas da Venezuela, o senador Flávio compartilhou um post no qual o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, anunciou novos ataques a embarcações que supostamente carregam drogas, desta vez no Oceano Pacífico. Hegseth alega que sabia que o barco alvejado estava envolvido no tráfico de drogas e transitava por uma rota conhecida do narcotráfico. Três pessoas morreram no ataque.
“Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”, disparou de imediato o senador fluminense.
Ante as reações críticas da imprensa [o colunista Bernardo Mello Franco, de “O Globo”, em tom jocoso, disse que Flávio Bolsonaro queria trazer o clima da guerra do Vietnã para a pacata ilha de Paquetá], o senador, em vez de se explicar, mirou na imprensa, acusando-a de distorcer as palavras de seu “post”.
Faz mais de 60 anos que não ponho os pés em Paquetá. Salvo um agradável fim de semana na casa alugada pelos pais da querida Marietinha Severo (vizinha no Leblon, a grande atriz continua sendo a mocinha que conheci), quando andei de bicicleta por vários cantos da ilha, as comemorações de aniversários de janeiro com primos e tios tijucanos na ilha (na verdade, um arquipélago) eram, para mim, um suplício. Não entendia como podiam gostar de trocar uma ida ao Arpoador ou a Ipanema (o Leblon era imundo, pelo despejo de esgotos no costão da Niemeyer, eliminado com o emissário submarino da Zona Sul no fim dos anos 60) pela sensação de pisar um chão lodoso nas águas turvas do fundo da Baía de Guanabara. Nos anos seguintes, passamos a comemorar no final do Recreio dos Bandeirantes, na junção com a praia da Macumba. Era uma aventura deliciosa. As vias de acesso eram precárias, mas o mar era límpido, em meio a uma praia quase deserta.
Lembro que a fama da bucólica Paquetá, onde era quase nula a circulação de carros, chegou a atrair para vizinha ilha de Brocoió, a residência de verão dos governadores do antigo Estado do Rio de Janeiro. Hoje, o arquipélago e a ilha atraíram uma declaração estapafúrdia de um senador bocoió.
As balas perdidas não ficaram restritas aos disparos do senador do PL. Na distante Jacarta, na Indonésia, eufórico com sua ascendente nas pesquisas eleitorais para 2026, o presidente Lula errou feio na retórica. Após defender que o comércio mundial não deveria ficar preso ao dólar como moeda de troca, sobretudo entre os países do BRICS [o que aumenta seu cacife nas negociações com Trump], derrapou ao fazer crítica lateral às ações das forças armadas dos Estados Unidos contra o narcotráfico, para lembrar (“en passant”) que o maior mercado consumidor de drogas são os EUA. Lula disse um disparate, ao afirmar que “o traficante é tão vítima quanto o usuário”. Tentou corrigir a péssima comparação (mas já era tarde). Que policie sua língua para não se enrolar na própria embriaguez da melhora da popularidade.
PL se vira nos 30 para defender mandatos
Contrariando sua função, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados arquivou na quarta-feira, 22 de outubro, por 11 votos a 7, o pedido de cassação do mandato do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro por trabalhar nos Estados Unidos contra os interesses nacionais para tentar livrar o pai da cadeia. Para os bolsonaristas e seus aliados, agir contra os interesses do país, empresas e trabalhadores instigando o governo Trump a impor tarifas de até 50% contra os produtos brasileiros não configurava falta de decoro, ou crime de lesa-pátria. O autor do pedido de cassação, o líder do PT, Lindbergh Farias (PT-RJ) entrou com recurso, ainda com a expectativa de revisão do caso.
Mas o que leva o PL a arregimentar apoiadores evangélicos e bolsonaristas em outros partidos para evitar tanto a cassação do mandato do filho 03 (ele segue ameaçado de perder o mandato por excesso de faltas, no começo de 2026)? Ou ainda a protelar a cassação da deputada Carla Zambelli (PL-SP), que agora poderá ser extraditada por decisão da justiça da Itália, onde se refugiou?
Um cálculo eleitoral considerável. Zambelli, reeleita em 2022 com 946.244 votos, foi a segunda deputada federal mais votada em São Paulo (o líder foi Guilherme Boulos, do Psol, com 1,001 milhão). Eduardo Bolsonaro foi o terceiro, com 741.701 votos, com perda de 1,1 milhão frente a 2018. Mas os dois puxadores de votos do PL garantiram, pelo coeficiente eleitoral, a eleição de mais três a quatro deputados. Quando um partido expulsa um deputado, como o PL fez com Antônio Carlos Rodrigues (dono de 73.034 votos) no primeiro semestre, os votos ficaram com o PL.
Entretanto o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal já definiram que, em caso de cassação por crime eleitoral, por quebra de decoro, ou por condenação na Justiça comum, os votos de quem perdeu o mandato são redistribuídos entre os partidos. Isso significa que, com a volta de Carla Zambelli ao Brasil, o cerco sobre ela e o 03 vai aumentar, pois o cacife conjunto de 1.687.985 votos pode alterar não só a representação paulista na Câmara como o próprio cacife da oposição.