'Preocupante': redução do plâncton no Atlântico traz riscos à vida humana, diz oceanógrafo

Um recente estudo apontou uma redução drástica na presença do plâncton no oceano Atlântico, acendendo um sinal de alerta sobre as consequências para a vida em todo o planeta

AP Photo / Guillermo Arias
Credit...AP Photo / Guillermo Arias

Solon Neto - Um estudo divulgado por pesquisadores da Global Oceanic Environmental Survey Foundation (Goes), com sede na Roslin Innovation Centre, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, mostra que os plânctons, pequenos organismos considerados a base da vida dos oceanos, podem estar desaparecendo rapidamente no Atlântico.

O resultado alarmante é fruto de uma pesquisa com base em dois anos de coleta de amostras na região equatorial do oceano. A redução de plânctons detectada chega a 90%, que era para ser atingida apenas daqui a 25 anos. Esse quadro gerou preocupação entre os responsáveis pelo estudo, que ainda precisa ser avaliado por pares.

Conforme explica à Sputnik Brasil o oceanógrafo e engenheiro ambiental David Zee, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), os plânctons são organismos microscópicos sem movimento próprio, que são carregados pelas correntes e pelos ventos no mar.

Segundo Zee, a presença dos plânctons é considerada um indicador da viabilidade da vida. Os plânctons são divididos em dois tipos: os de origem animal, zooplânctons; e os de origem vegetal, fitoplânctons, que cumprem uma função fundamental.

"O fitoplâncton tem uma importância muito grande porque, assim como uma planta, ele sintetiza o próprio alimento [...]. Assim ele retira o gás carbônico da atmosfera e na fotossíntese produz oxigênio. É um serviço de importância fundamental para a sobrevivência humana no planeta", explica o oceanógrafo.

Segundo Zee, diante das características e da importância dos plânctons, o alerta emitido pelos pesquisadores sobre as consequências do desaparecimento desses organismos não pode ser considerado algo exagerado. Para o pesquisador, esses alertas devem ser levados a sério.

"É uma situação preocupante, porque isso começa a mostrar que o equilíbrio do planeta está mudando. E o planeta pode mudar para uma outra situação de equilíbrio que não comporte a vida humana", alerta.

 

Influência humana é provável causa do problema
A pesquisa da Goes afirma que as alterações relacionadas à redução dos plânctons são motivadas pela ação humana. Segundo os pesquisadores envolvidos no estudo, essas alterações incluem a crescente presença de fertilizantes, de produtos químicos e do plástico nos oceanos. Para o oceanógrafo David Zee, o problema pode ser ainda mais complexo e carece de mais estudos.

"A diminuição dos plânctons vai muito além do fertilizante e do plástico, porque isso aí, principalmente os poluentes químicos, fica circunscrito a uns 200 km, 300 km em torno do litoral. Nós temos muito mais oceano para dentro", especula o pesquisador.

A única ressalva, segundo Zee, seria em relação ao plástico, que devido à durabilidade consegue se espalhar pelos oceanos. Para o pesquisador, porém, o problema principal em relação ao plâncton é provavelmente a sua fonte de alimentação: os sais minerais.

"Esses sais minerais dependem da circulação oceânica, mas não uma circulação superficial, uma circulação de fundo do oceano, abaixo dos 3.000 m de profundidade. Essa água que aflora em determinados pontos do oceano é que faz com que essa vida do fitoplâncton se desenvolva", afirma.

Apesar da hipótese, o oceanógrafo destaca que o conhecimento humano sobre a vastidão do oceano é ainda insuficiente para avaliar de forma abrangente as causas e as consequências do problema. Por isso, mais estudos seriam necessários para avaliar como resolver a situação.

 

Conhecimento limitado dos oceanos é entrave na busca de soluções

O oceanógrafo destaca que o plâncton é um "bioindicador importantíssimo" para o equilíbrio da vida do planeta e ressalta que os oceanos são ainda uma área na qual o conhecimento do ser humano é limitado. Segundo ele, é necessário ampliar os estudos sobre os oceanos, inclusive para compreender a dimensão de problemas como os relacionados à redução de plânctons.

"A gente ainda tem muita dificuldade de ir para os oceanos, tanto é que os estudos oceanográficos de larga escala, hoje, são feitos com mais eficácia por meio de imagens de satélite", afirma.

O pesquisador recorda que, devido à necessidade de ampliação do estudo nessa área, a Organização das Nações Unidas (ONU) escolheu a atual década, entre 2021 e 2030, como a década da Ciência dos Oceanos para o Desenvolvimento Sustentável. No site voltado à proposta, a ONU destaca a importância dos oceanos na busca de soluções para desafios como o aquecimento global.

"Isso foi a estratégia adotada pela ONU, que pôs luz e foco em cima de algo que passava despercebido por nós, porque a gente não conhece o que são os oceanos. E na hora que ela coloca luz sobre os oceanos, a gente começa a criar opinião pública, que é o que vai afetar, digamos assim, o comando e as grandes decisões políticas dos líderes dos vários países do mundo", aponta.

O professor David Zee ressalta a necessidade de pressionar os governos para ampliar o olhar sobre a importância dos oceanos para a manutenção da vida. Para o oceanógrafo, é necessário salientar que a questão ambiental é, acima de tudo, a defesa da sobrevivência humana.

 

 

 

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