‘As verdades’, com Lázaro Ramos, chega aos cinemas dia 30

Dirigido por José Eduardo Belmonte e protagonizado também por Bianca Bin, é um 'thriller existencial', define Belmonte. 'O filme aponta para algo muito atual que é a autoverdade', ressalta Lázaro

Foto: Taylla de Paula/divulgação
Credit...Foto: Taylla de Paula/divulgação

O filme – que tem Susy Milstein como assistente de direção – segue o policial Josué (Ramos) tentando solucionar um crime cometido contra o empresário Valmir, candidato a prefeito em um pequeno município do sertão baiano.

A história é contada a partir de três versões diferentes: a de Cícero, matador de aluguel; a de Francisca, noiva do empresário; e a de Valmir, a vítima. Cabe a Josué investigar quem está falando a verdade.

O roteiro, escrito por Pedro Furtado, é uma espécie de “Rashomon”, clássico do consagrado cineasta Akira Kurosawa, no qual quatro envolvidos, inclusive o morto, dão versões diferentes para um mesmo crime. No filme de Belmonte, igualmente cada uma das versões, traz o ângulo e a interpretação do personagem dificultando encontrar o encaixe das peças.

“As Verdades” traz um elenco estelar que vive intensamente e com louvor seus personagens: além de Lázaro e Bianca, estão no longa Drica Moraes, Thomás Aquino, Zé Carlos Machado e Edvana Carvalho. Sem deixar de lembrar que Belmonte é também um excelente diretor de atores.

O cineasta, em mais de duas décadas de atividade profissional, dirigiu alguns dos principais atores brasileiros e latino-americanos em dezenas de filmes e séries de TV. Já realizou 13 longas-metragens e recebeu diversos prêmios, entre eles, no Festival do Rio, em 2008, e no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, com o drama “Se nada mais der certo”. “Alemão”, maior bilheteria do cineasta no Brasil, atraiu um milhão de espectadores no cinema em 2014.

Lázaro Ramos, além de ator, é também diretor, apresentador, escritor e empresário. Em quase 35 anos de carreira, atuou em mais de 30 filmes vivendo personagens marcantes como João Francisco dos Santos em “Madame Satã” (2002) e Ezequiel em “Carandiru” (2003). Como diretor, recentemente lançou “Medida Provisória”, um enorme sucesso de público e crítica.

Belmonte e Ramos destacaram na entrevista ao Jornal do Brasil o que os levou a realizar “As verdades”, e revelaram detalhes sobre a escolha do tema, as filmagens e a conexão do assunto tratado no filme com a realidade de muitos fatos que acontecem no Brasil há séculos.

 

TRECHOS DAS ENTREVISTAS

 

Jornal do Brasil - O que o levou a realizar “As verdades”, um filme que aborda um tema tão instigante?

Belmonte - Inicialmente o convite despertou minha curiosidade porque o ponto de partida - várias versões para um fato - se relaciona com uma questão que sempre me interessou e está em alguns de meus longas-metragens: a dificuldade do indivíduo de se conectar à realidade. Mas o que me fez aceitar o convite dos produtores e entrar no projeto foi perceber que havia um tema maior do que a investigação do crime em si: o crime que “As verdades” mostra vem acontecendo há séculos no Brasil. O filme é também um olhar sobre a cultura de violência que está impregnada não só naquela cidade, mas no país. É um tema incômodo e que vale a pena ser discutido, filmado, mostrado. Por isso, considero “As verdades” um thriller existencial.

 

Desde "Madame Satã" em Sundance, Lázaro tem vivido personagens fascinantes e este não é diferente. Ele era sua opção desde o início?

Belmonte - Sim. Considero Lázaro o grande ator da sua geração: sensível e um pensador do país e do seu tempo. Em certo momento havia um conflito de datas que o impedia de estar no projeto, mas a produção acabou sendo adiada e o Lázaro estava disponível na nova data. Mas queria destacar que não foi apenas o Lázaro: o elenco todo do filme foi uma grande motivação e uma das melhores lembranças que guardarei deste projeto.



No filme, a história é contada a partir de três versões diferentes. Um pouco como “Rashomon”, de Kurosawa. Poderia falar um pouco sobre essa inspiração?

Belmonte - O filme é uma adaptação de um dos contos de Ryunosuke Akutagawa que também estava no clássico do Kurosawa. Lá eram “Rashomon” e “Depois do bosque”. Aqui, somente “Depois do bosque”, um conto do século 19, mas extremamente atual. Penso que o choque entre objetividade dos fatos e a subjetividade das interpretações é tão antigo quanto a humanidade. No entanto, em tempos de individualismo exacerbado pela internet e redes sociais, que bagunçaram o inconsciente coletivo, essa questão ficou ainda mais problemática: a visão de mundo fica limitada às bolhas. Perde-se a visão do todo, as sutilezas, o discernimento. E, no geral, sinto que as pessoas perderam também a vontade de se comunicar apesar de ter muitas redes sociais. Nesse sentido, contar histórias por meio do cinema tem, para mim, um poder profilático. É se permitir ao confronto e sair de você para, de alguma forma, adentrar e provocar o imaginário seu e de outras pessoas.

 


Há muitas motivações que nos levam a fazer alguma coisa. Mas sempre tem aquela mais forte que dá o impulso final para a decisão. Qual foi a principal para aceitar viver Josué em “As Verdades”?

Lázaro Ramos - O conjunto do elenco, o diretor José Belmonte – que já tinha tentado trabalhar comigo outras vezes - e voltar a fazer um filme nacional mais denso, que eu estava com saudade. Desde “Tudo que aprendemos juntos” e “Cidade Baixa” que eu não fazia isso. E a Bahia sempre é motivo para eu fazer qualquer coisa. Ainda mais voltar para minha terra fazendo uma história como essa, em uma região que eu nunca havia filmado, como Itacaré. Esses motivos foram determinantes.

 

Em “As verdades”, a história é contada a partir de três versões diferentes. Um pouco como “Rashomon”, do Akira Kuwosawa – no filme dele as versões eram 4, entretanto a conexão com o filme do Belmonte é muito interessante. Porque, como sabemos, isso acontece mesmo, cada pessoa vê um fato de uma forma diferente, de acordo com sua história de vida, seus padrões, seus condicionamentos. Poderia falar um pouco sobre isso? Na vida, no cotidiano, no relacionamento humano, enfim o que essa assertiva, que acaba sendo também uma verdade, diz pra você?

Lázaro Ramos - Eu acho que o filme acaba não dando conta de tudo, mas ele aponta para algo muito atual que é a autoverdade. É você escolher o seu ponto de vista e, independente dos fatos, defendê-lo até o fim. No caso da nossa história, é pra fazer um filme de suspense policial, mas, sim, há essa mensagem subliminar também: onde mora a verdade? É um tema da nossa atualidade, é o que a gente tem debatido. Esse debate da autoverdade, da fake news, isso é algo que acho que a gente ainda vai falar por muito tempo, porque tem afetado as nossas vidas. Pode ser num caso extremo como o do filme, que é um crime, mas, às vezes, é nas relações interpessoais das coisas mais simples. Então, além de ver um filme de gênero, as pessoas vão poder sair do cinema e ainda ter um debate sobre algo que é tão pertinente para nós.

 

Você já viveu muitos personagens no cinema: tem algum que falou mais ao coração? Algum que você guarda com mais carinho? Ou aquele até que – como me disse uma vez um famoso ator – você teve dificuldade de se separar dele quando as filmagens terminaram?

Lázaro Ramos - Na verdade, eu tenho muita dificuldade de me separar sempre dos personagens. Até 10 anos atrás eu ficava doente quando acabava uma filmagem, e eu não entendia o que era. Depois, eu passei a compreender que era a dificuldade de me separar daquele personagem. Eu criei até uma simpatia, que é levar algum objeto que eu tenha convivido, do personagem, comigo. Curiosamente, as dores de cabeça, dores de barriga, febre, problemas que eu tinha no fim das filmagens pararam. Então eu acho que trago eles comigo. É um processo para saber que eles não vão embora, eles permanecem. E eu tenho muita sorte. Geralmente, quando me fazem essa pergunta, eu não consigo escolher, porque eu acho que tive a benção de, na minha carreira, encontrar personagens incríveis, como Madame Satã, Foguinho (“Cobras & Lagartos”), Mister Brau, Zé Maria (“Lado a Lado”), Deco (“Cidade Baixa”), mais recentemente o Arandir, de “O Beijo no Asfalto”... Eu sempre termino essa resposta dizendo que eu sou grato por poder ter vivido tantos personagens diferentes, que é o que dá sentido à minha permanência nessa profissão.

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