Festival de Berlim: série consegue fato inédito para o Brasil

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Foto: Marcinho Nunes
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O Festival de Berlim, na sua mostra Berlinale Series, reúne uma seleção exclusiva com o melhor das novas produções de séries em todo o mundo. “Os últimos dias de Gilda”, de Gustavo Pizzi, foi selecionada para o programa desta 71ª edição, se tornando a primeira série brasileira a participar do evento. Adaptada do monólogo teatral homônimo de Rodrigo de Roure, a série traz no elenco Karine Teles e Julia Stockler, e será exibida em quatro episódios num total de 106 minutos.

A história segue Gilda, uma mulher livre no mais amplo sentido da palavra. Tanto desapego e independência incomoda a vizinhança, principalmente a esposa de um pastor com aspirações eleitorais. A produção aborda temas atuais e propõe uma reflexão sobre liberdade, solidariedade, empatia e a onda de conservadorismo que assola a sociedade.

Em entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL, Pizzi falou sobre a série, a importância da seleção para Berlim e sua expectativa para exibição no festival.

Como você está vendo a seleção de “Os últimos dias de Gilda” na Berlinale/Series, que reúne o melhor da produção de séries em todo o mundo?

Ter uma série brasileira pela primeira vez na seleção oficial de Berlim é algo que traz muita alegria. Os filmes brasileiros têm uma forte tradição no cenário internacional, mas as séries independentes brasileiras ainda caminham de um jeito mais tímido, mas têm muito potencial para ocupar cada vez mais espaço. Queremos sempre levar as coisas que fazemos o mais longe possível. E ter uma janela como a do Festival de Berlim é uma oportunidade fantástica para discutir com mais pessoas o que está acontecendo aqui no Brasil e como isso também se reflete no resto do mundo.

A série aborda temas amplos e propõe uma reflexão sobre liberdade, conservadorismo, temas bem dentro do viés seguido pelo festival. Isso pode ter influenciado na seleção?

É muito bonito quando uma obra consegue refletir o seu tempo e ao mesmo tempo emocionar as pessoas. Foi o que eu senti quando assisti, em 2004, ao monólogo teatral do Rodrigo de Roure. Ele conta que escreveu pensando na mãe dele, e a ideia sempre foi respeitar e ser o mais honesto com a essência do texto original. E também dialogar com o mundo de agora, que é parecido com o de quando a peça foi escrita, mas tendo em mente um País que passou por um golpe de estado em 2016 e um mundo onde uma extrema direita ocupa novos espaços. Tenho a sensação de que as pessoas – aqui no Brasil e também em outros lugares do mundo – estão se equilibrando entre o medo e a esperança. Assim como Gilda. E muita gente se identifica com ela e quer lutar ao lado dela contra a opressão, contra a violência cotidiana e a violência institucional. A busca por justiça e liberdade une as pessoas em muitos lugares desde sempre.

Qual sua expectativa para esta diferenciada 71ª edição? Com o fim da pandemia, você acha que pode haver uma tendência de continuidade desse formato híbrido?

Certamente é um ano atípico para o festival com tudo que estamos passando no mundo por conta da pandemia. Mas o que nos resta é tentar tirar o melhor dessa experiência e buscar novas oportunidades. Não dá para saber o que vem depois da pandemia, mas em relação ao formato pouco comum – 4 episódios, série limitada, ou seja, única temporada –, foi uma decisão tomada em função de uma possibilidade narrativa. Poderíamos contar de outros jeitos, mas foi esse o desafio escolhido. O mercado explora pouco esse formato nas séries, mas mesmo assim podemos imaginar outras possibilidades de distribuição, além de ser um bom espaço para explorarmos, enquanto artistas e criadores. Acredito que com Gilda – por mais que seja um material de cento e poucos minutos, tempo de um longa-metragem – não funciona colar uma parte na outra e dizer que é um filme. Cada final precisa do clima e do gancho específico que temos ali, assim como os créditos iniciais que são de extrema importância: a mesma imagem, mas com músicas diferentes. Os cortes narrativos e a construção do clima de cada episódio vão conduzindo os espectadores de um jeito muito específico que precisa de pequenas pausas. Mas diria também que poderia ser exibido em cinemas, desde que existam pequenos intervalos de alguns minutos entre os episódios. É um formato que não existe, mas que talvez possa ser inventado”.