Crise ou Oportunidade, eis a questão

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O ser humano é paradoxal. Canta e grita, dança e agride, se mostra e se esconde, cria e incinera. É o joio e o trigo. É ambivalente. A vontade de ir para uma festa até o amanhecer e de ficar em casa para acordar cedo é a dúvida de toda sexta à noite - em tempos não-pandêmicos. Ofertamos palavras e afetos, mas também rejeitamos. Somos fonte de comunicação e de incomunicabilidade. Dizem que amor e ódio andam juntos, e aí lembro do professor Juvenal Arduini, que comentou: “amar é expressão de vida, êxtase, paixão, impulso vital. É Eros. Mas o ser humano pode também gotejar ódio feroz. O ódio é filho de Tânatos. O ser humano seria uma mistura de Eros e Tânatos. Quando o amor se perverte, pode se converter em ódio implacável.” Podemos dizer que somos dialéticos, ou que somos um protótipo de dialética, pois vivemos a contradição entre o bem e o mal no cerne de nossa existência. Existem lutas entre grupos e sistemas, mas também entre a força construtiva e a força destrutiva na medula do existir pessoal. Nossa linguagem é tragicômica, né? E para entender esta linguagem, só vendo e vivendo o processo. Tudo é o processo.

Macaque in the trees
Cena do espetáculo-filme 'Vinte Um Vinte.ensaioaberto' que, diante da crise, se fez uma oportunidade (Foto: Foto: Lorena Zschaber)

Tudo é o caminho, também. E o caminho para a plenitude é a arte, a cultura. A arte está em processo o tempo todo, em constante modificação e atualização. Hoje, teatros e cinemas sem público, casas de shows sem música, galerias sem obras. Mas as telas eletrônicas estão cada vez mais iluminadas com streamings, lives e filmes. Até os livros saíram das prateleiras. Novas linguagens surgindo, novos debates fluindo. Enquanto existia a vida dita normal, com a possibilidade de apreciar eventos culturais presencialmente, nada, quase ninguém. Um sentimento de descaso. Era mais produtivo investir em outras coisas, porque tudo isso parecia supérfluo. Quanta inocência. Nos últimos tempos, todo mundo tem saudade do que não viveu, literalmente. Uma vez disseram que a pandemia matou a arte. Eu discordo. Já vinha num processo de desvalorização onde os realizadores tinham quase que implorar para ter público. Agora, todo mundo quer ver arte, quer estar nas plateias, quer lotar casas de shows, faz questão de analisar galerias e debater em saraus de poesia. Mas, quando tudo liberar geral, será que vai ser assim? Espero eu que sim.

Uma das palavras mais ditas nos últimos tempos é “crise”. Crise sanitária, crise política, crise existencial, crise financeira, crise artística. Tudo é crise. E tem como não falar desta distinta simpática e efusiva sem noção? Mas, coloco aqui uma reflexão: seria a crise uma oportunidade? Ou é muito romantismo dizer isso? Acho que, por um lado, a crise pode ser vista como oportunidade sim. O isolamento social nos impossibilitou da presença física, dos aplausos, dos beijos e abraços, mas nunca das ideias. Sabemos que a saúde mental não está lá essas coisas, e esse também é um processo diário, de luta e conquista. Sem cobranças, o que às vezes é impossível. Para a maioria, é uma questão extremamente delicada, e ainda assim, é com as ideias e com nosso pensamento que ficamos ainda mais íntimos. Elas existem, e é ali que damos vazão à criatividade em forma de conteúdos, invenções e novas ações. É reinventar maneiras de fazer até mesmo atitudes cotidianas. Como toda crise, além dos males, existem as possibilidades de crescimento. Produtos e serviços criados para acompanhar uma mudança de comportamento da sociedade, e uma demanda que pode ser latente. Novas formas de se apresentar, novos veículos para se comunicar. Novo olhar para o amor, incluindo o amor próprio. São adaptações perante ao que estávamos acostumados no dia-a-dia, para reagir ao processo, que é quase uma seleção natural. E essas adaptações podem nos trazer...oportunidades.

A tal da crise afetou tudo, inclusive o mercado artístico no Brasil. Agora, mais do que nunca, é hora de buscarmos a criatividade e a inovação. Os negócios que se desenvolvem nas bordas do mercado são, muitas vezes, os responsáveis por pensar fora da caixa e dinamizar este mesmo mercado. Deleuze diria que é um momento de tentar transformar o caos em criação. O caos, aqui, como fluxos velozes e incessantes que perpassam a nossa consciência sem que estejamos completa ou minimamente conscientes deles. É como um vazio que não é um nada. E o artista é a figura que mergulha no caos para extrair obras e momentos que eternizem os acontecimentos e as forças que nos constituem. É recortar do mundo uma possibilidade através de sua obra. Um momento de ousar para reinventar. Quem vem amenizando a dor e a solidão é ela: a arte. Mas, o que queremos ver? O que existe, o que não existe, e o que pode ser feito? É tempo de mudança, e qualquer mudança demanda tempo, calma e resiliência.

Conversava outro dia sobre isso com Ivan Mendes, dentro das milhares de prosas que temos diariamente, e ele comentou a sua ideia a respeito do paradoxo crise x oportunidade: “Depende de como você usa a crise. A crise profissional, por exemplo, é uma oportunidade de repensar seu trabalho e seus objetivos. A crise no relacionamento idem. E quando pensamos nas crises, repensamos nós mesmos.” É, nem tudo está perdido, gente. Aliás, nada está perdido. Uma tela em branco assusta o pintor e o intimida, porque nela, ele vê o infinito. O mesmo vale para o escritor que se depara com a folha em branco, ou para o ator que vê um palco vazio. É o caos, é o universo todo que se apresenta neles de uma só vez. Cada passo recorta o caos ao redor e lhe dá um contorno, uma forma e o que é mais importante: o caminho. O artista extrai afetos do universo ao seu redor, e cria um finito que restitui o infinito, nos colocando no seio dele. Eterniza sensações e transforma em arte este encontro de seu corpo com o mundo. E quando a obra está terminada, ela perdura. O ser humano é também um artista, e pode criar a sua arte da forma mais íntima e particular. Então, que este questionamento exista. Crise ou oportunidade? Fertilidade nas criações ou niilismo? Uma águia altiva que recorta horizontes vastos ou um verme que rasteja? Tudo isso é muito paradoxal, assim como o ser humano. Mas vale a reflexão.

 



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Cena do espetáculo-filme 'Vinte Um Vinte.ensaioaberto' que, diante da crise, se fez uma oportunidade