CADERNOB
Por que a adolescência é tão ruim?
Por FLÁVIO COLKER
Publicado em 05/04/2025 às 13:16
Alterado em 05/04/2025 às 13:16

O seriado Adolescência começa poderosamente, com a prisão de um menino indefeso, em casa. O xixi causado pelo terror, o ambiente inóspito da delegacia, a solidão da cela, a ambiguidade do pai, nos aterrorizam também. De cara, o seriado provoca uma empatia imensa com os personagens e admiração pela narrativa precisa, exata, impecável.
O segundo episódio aumenta o brilho com a descrição impiedosa do purgatório que é a escola para um adolescente. Sentimos a injustiça de estarmos a salvo do bullying enquanto enviamos nossas crianças para suportar o horror. O terceiro episódio é um duelo de interpretações entre o menino e sua inquisidora, a psicóloga. A admiração continua, porém algo começa a dar errado.
Cinema narrativo tem leis dramáticas que remontam a Aristóteles; o percurso dos personagens é um caminho simbólico de transformação, libertação, rumo a dias melhores ou ao menos uma consciência aperfeiçoada da existência. O drama acende a luz na escuridão através da imaginação. A ficção faz da realidade um jogo de símbolos onde a vida encontra sentido, interpretação e saída; não estamos assistindo a realidade em seu puro caos mas um conflito entre tipos bem definidos e vestidos com as roupas do nosso caos. O herói, o vilão, a comunidade, a lei, o poderoso, o marginal, são como o rei, rainha, bispo e peão do jogo de xadrez mas quem move as peças é o contador de estórias e quem manda no jogo é o inconsciente, coletivo. O objetivo do jogo? Alertar sobre o perigo da inconsciência, do impulso, do apetite desmedido, da falta de responsabilidade. A regra do jogo? Não trair a confiança depositada pelo público, que se dispôs a acreditar que aquele faz de conta é verdade e se emocionar com o destino do herói. Ele carrega em cada passo, cada queda, a nossa esperança. Nos conformamos com a miséria de nossas vidas porém nos revoltamos com a injustiça que sofre o herói. O prêmio por nossa solidariedade é a reviravolta, o retorno de sua alegria, sua vida.
A dor do adolescente está em acreditar que perdeu sua inocência. Ela o protegia quando fazia crer que seus pais conheciam o certo e o errado. A inocência o protegia com o seu amor incondicional. Não mais. Ele está só em um deserto onde a aprovação dos pais se desmanchou como areia, sedento da aprovação dos outros adolescentes. O que não suporta nos adultos é carregar a esperança deles em sua inocência.
O adolescente não sabe, mas ele ainda é inocente. Nós sabemos; o contador de estórias sabe. Os adultos têm a obrigação de proteger essa inocência. Esperei e torci pela ressurreição da inocência desse menino, do herói desse seriado. No lugar da reviravolta, do milagre, me ofereceram um último capítulo em que a família tenta encontrar o seu erro e não encontra. A vida perde o sentido, abandonada pela ficção.
Não adianta escrever que Adolescência, o seriado, é um alerta se quando alertados não há que fazer. É o falso alerta, o aproveitador do desespero. O perigo que ronda o adolescente é anterior a internet, anterior a Juventude Transviada...e sim, há solução, proteção: o amor incondicional pelos filhos. Mais efetivo do que vigiar e punir. Mais protetor do que o diálogo: nós, os adultos, não vamos entender nunca... we don’t get it e não adianta tentar. O adulto que entende o jovem é um canastrão. O que podemos fazer com honestidade é ter felicidade nos olhos por estar perto do filho. Dá pra fazer isso? Então tá limpo!
Flavio Colker - Artista