Livro/Resenha - Um romance-manifesto em espiral

Em seu mais novo livro, "criogenia de D. ou o manifesto pelos prazeres perdidos", publicado pela Mondrongo, o escritor Leonardo Valente faz jus às capacidades e potências do gênero romance

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Em uma das obras mais importantes que teorizaram sobre a literatura, o filósofo húngaro Georg Lukács afirma que o romance - diferentemente dos gêneros ficcionais que vieram antes, como é o caso da tragédia - promove o encontro do homem com o mundo e o aproxima das coisas terrenas. Já em uma perspectiva contemporânea, o francês Jacques Rancière nos informa a respeito do caráter democrático do romance em sua forma e conteúdo. Ambos os autores sinalizam para as possibilidades de categorias de escrita e de personagens do mundo ordinário que podem ser abarcadas nesta espécie de “arte total” da literatura.

Em seu mais novo livro, “criogenia de D. ou o manifesto pelos prazeres perdidos”, publicado pela Mondrongo, o escritor Leonardo Valente faz jus às capacidades e potências do gênero. Ao leitor não é dado acesso a uma identidade fixa e, portanto, confortante, de quem narra e de quem vive o narrado. Afeito ao jogo de palavras da língua, Valente se vale do idioma nativo, que não possui ambiguidades na definição do gênero como é o caso do inglês, para mergulhar seus interlocutores em confusões de pronomes pessoais e variações de gênero em substantivos e adjetivos. Definitivamente, não podemos apreender a voz que nos fala. Suas falas são falseadas, fugidias, e seu ponto de vista parece estar fixo no espaço – uma viagem ao redor do meu quarto –, mas mutável na identidade.

Reforçada pela forma visual do texto e o modo anárquico como a mancha gráfica está disposta na página, a prosa de Valente é romance, mas transita também entre receita de penne ao funghi e poema que quase ganha autonomia para ser lido isoladamente e independente em uma página e/ou assume um fluxo acelerado em que o pensamento atropela as palavras, mas retorna para reorganizá-las ao leitor. Semântica e graficamente, chama a atenção de um leitor pressuposto a ausência das capitulares no início de cada frase. Em outras palavras, Valente, sem fazer concessões, consegue com êxito dar sentido ao pensamento como texto literário.

A visceralidade literária é tematizada na própria escrita. Nosso/a narrador/a nos informa sobre as demandas da literatura: cortar palavras. E, contudo, admite: “não limpo meus textos. nascem e crescem sujos, brutos, sem emboço e de primeira demão. se revisados, perderiam aquela gordura que envolve o lagarto de boi e que o protege e o deixa úmido e saboroso no forno. carne sem capa de gordura desidrata na grelha e vira uma palha sem gosto”. Assim mesmo, tudo em letras minúsculas. Em uma analogia com a arte cinematográfica, Valente escreve e dirige com sua caméra-stylo, mas é também ele o montador que corta, reluta em arquivar, às vezes guarda a gordura, em outras a entrega ao leitor.
Nossa (nosso? não sabemos) narradora está cansada de “vidas lustradas e minuciosamente talhadas à mão” e ganha anticorpos na terra molhada, escura. É da errância que se faz o livro possível. Valente também acompanha uma tendência contemporânea de sabotagem e implosão da autoficção, gênero tão esgotado há alguns anos. Nesse sentido, flerta mais com bastidores falseados do e pelo escritor, como vemos n’O Romance Luminoso, do chileno Mario Levrero, para lembrarmos apenas uma das referências contemporâneas de uma literatura que se assume texto bruto, muito embora ecos de uma literatura mais moderna também encontrem similitudes na fatura da escrita do autor de “criogenia de D”.

Mais adiante, porém, novos indícios de autossabotagem e alerta ao leitor que entende aquele texto como diamante bruto à espera da lapidação: “dei várias dicas, em vários momentos, mas para quem não entendeu, repito com todas as letras que sou uma farsa, confiar no que escrevo é uma temeridade. confiar na escrita é um exercício insano. desnudar-me, na verdade, é tornar-me ilegível”.

Citações a personagens clássicas da literatura, como Anna Karenina e Emma Bovary, colocam nossos pés de leitores no chão. Mas, afinal, Valente opta por novamente implodir fórmulas fechadas e enredos bem delineados. Mesmo diante de frustrações e das sucessivas constatações de que “tanto a vida quanto a língua me impõem retas e rupturas”, Valente e quem narra “Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos” colocam o leitor à beira do precipício ao manifestarem uma bem-sucedida empreitada que se realiza no desejo de uma escrita em formato de espiral, uma queda eterna para mostrar que a boa ficção não deve ser um acalanto.

Eduardo Miranda Silva. Jornalista, professor e doutor em Literatura, cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio