Relato impressionante sobre a agenda oculta da Europa

Exclusivo: Costa Gavras fala com o JB sobre seu novo filme

Foto: Jessica Forde
Credit...Foto: Jessica Forde

“Jogo do Poder” (Adults in the Room”), do diretor Costa Gavras - que retrata a crise econômica e política de 2015 na Grécia - será lançado nos cinemas brasileiros dia 12 de agosto.

O filme é um relato impressionante sobre a agenda oculta da Europa e o que realmente ocorre em seus corredores de poder. A trama expõe as razões para a crise da Grécia, quando foi travada uma das mais espetaculares e controversas batalhas de sua história política. A verdade era quase inteiramente desconhecida, principalmente porque grande parte do que acontece na União Europeia é a portas fechadas.

Costa Gavras, nascido na Grécia e radicado na França, voltou ao seu país para realizar o filme, que é o primeiro sobre sua terra natal desde “Z”, de 1969.

O roteiro, também assinado por ele, parte do livro de memórias do ex-ministro das Finanças Yanis Varoufakis, “Adultos na Sala: Minha Batalha Contra o Establishment”; Yanis é personagem central no filme.

Costa Gavras contou que teve a assessoria do próprio Varoufakis, a quem mostrou o roteiro durante diversas fases da produção. A colaboração do político foi fundamental para compreender questões técnicas e econômicas que, muitas vezes, são difíceis para quem não é da área.

O ótimo elenco inclui Christos Loulis (Yannis Varoufakis), Alexandros Bourdoumis (Aléxis Tsípras, Primeiro-Ministro) e Ulrich Tukur (Wolfgang). A produção é de Alexandre Gavras e Michèle Ray-Gavras, mulher e produtora do cineasta.

Sempre centrando sua obra em temas políticos, o diretor tem uma carreira que inclui filmes cultuados, como “Estado de Sítio” (1972) e “Missing: O Desaparecido” (1982), que lhe deu a Palma de Ouro e o Oscar de roteiro adaptado.

Macaque in the trees
Cena de Jogo do Poder (Foto: Foto: Jessica Forde)

Por sinal, ninguém mais indicado que ele para retratar essa grande crise que assolou a Grécia em meados da década passada.

“Jogo do Poder” estreou fora de competição no Festival de Veneza de 2019, no qual o cineasta merecidamente recebeu o “Prêmio Jaeger-Le Coultre Glory” pelo conjunto da obra.

Em entrevista exclusiva para o JORNAL DO BRASIL, Costa Gavras falou sobre a motivação para adaptar o livro de Varoufakis, a posição da Europa diante da crise grega e os resultados que espera com o filme.


JORNAL DO BRASIL: Por que você se interessou em adaptar o livro de Yanis Varoufakis?

COSTA GAVRAS: O livro de Varoufakis trouxe uma imagem e uma verdade que seria impossível encontrar em outro lugar sobre os debates do Eurogrupo, um órgão muito importante da União Europeia. Teria sido impossível encontrar esta verdade entre os oradores e participantes deste grupo, cujas decisões foram, e ainda são, essenciais para a economia dos países que fazem parte da União Europeia.
Varoufakis tinha registrado esses debates - e deu-me uma cópia - que me permitiram utilizar verdadeiros diálogos, comportamentos e decisões desta assembleia que, aliás, não conservou nem publicou quaisquer atas dessas reuniões.
A outra qualidade relativa ao livro de Varoufakis - que li, conforme foi escrito, capítulo por capítulo - é que nenhum dos participantes dessas reuniões o negou ou o processou por difamação, calúnia ou mentira.

O retrato de Varoufakis sobre o que ocorreu está aberto a interpretações. Mas o filme também tenta mostrar que a Europa não foi solidária e foi indiferente à crise grega?

O tema do filme não é o retrato de Varoufakis. Mas através dele e das suas ações, como ministro do governo grego e excelente economista, o filme permitiu-me apresentar uma União Europeia a, em uma só voz e em geral, enfrentar a crise grega com um cinismo e uma incompetência imperdoáveis. O país e o povo grego, em decadência econômica, foram convidados a pagar sem demora uma dívida impossível de quitar.
Não era a União com que sonhávamos na Europa; era uma Europa com o único objetivo de economia, rentabilidade, longe da cultura, do humanismo e da igualdade para todos.
E onde as decisões estavam sujeitas à aprovação de um único país, a Alemanha.
O personagem Varoufakis explica muito bem no filme - como no livro - a inépcia dos representantes da "troika" da Europa.

Tudo isso ainda afeta o cotidiano dos gregos, um povo que sobrevive heroicamente. E “Jogo do Poder” mostra verdadeiramente o que aconteceu. Você acha que o filme pode contribuir para mudar essa situação adversa?

“Com o filme foi importante mostrar que o desemprego na Grécia foi de 28%, que 400 mil jovens licenciados, formados por instituições gregas, deixaram o país em busca de trabalho em outro lugar. E mostrar também que a União Europeia não pode continuar assim. Não acho que com um filme nós possamos mudar o mundo ou a União Europeia. Mas podemos testemunhar e fazer talvez as pessoas pensarem e debaterem. Já seria um grande sucesso. E principalmente quando o filme expõe fatos, pessoas, situações reais. Que é o caso de “Adults in the Room”.


O LEMA

Logo após ter feito “Z” em 1969, um dos seus filmes mais políticos e que o projetou internacionalmente, Costa Gavras repetiu, em inúmeras entrevistas, o lema que seguiria em sua carreira de 28 títulos, que inclui clássicos como “A Confissão” e “Estado de Sítio”.

“Eu fiz ‘Z’ primeiro porque eu nasci na Grécia, e segundo porque eu senti que deveria fazer alguma coisa. Algumas pessoas assinam petições, outras vão para as ruas, eu procuro fazer algo como um cineasta.”

O diretor, de 88 anos, é pai dos também cineastas Romain Gavras e Julie Gavras, esta autora, entre outros, do ótimo “A Culpa é do Fidel”, que fez enorme sucesso em Sundance 2006.

Costa Gavras foi presidente do júri da competitiva oficial da 58ª edição do Festival de Berlim, que deu o Urso de Ouro para “Tropa de Elite”, do brasileiro José Padilha, em 2008.



Sempre centrando sua obra em temas políticos, Costa Gavras tem uma carreira que inclui filmes cultuados
Cena de Jogo do Poder