Primeira edição integral em português dos diários de Virginia Woolf chega ao mercado literário brasileiro

Editora Nós mostra aos leitores como as guerras e o dia a dia nas ruas destruídas de Londres influenciaram na formação da subjetividade da escritora britânica

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As angústias, pensamentos, emoções e reflexões de Virginia Woolf. O cotidiano das ruas de Londres destruídas pela guerra narrado por uma das escritoras mais importantes do século 20. Com o seu olhar, as suas impressões. Esse é o conteúdo que recheia as páginas de Os diários de Virginia Woolf: Diário I – 1915-1918 (Editora Nós, 344 páginas). Com tradução de Ana Carolina Mesquita, que pesquisou de forma detalhada os diários da escritora para a sua tese de doutorado, a obra é a primeira edição integral publicada em português. “Era ali (nos diários) onde ela sentia poder relaxar a pena, ao contrário da sua escrita ficcional e dos ensaios, que a consumiam imensamente”, escreveu Ana Carolina na apresentação do livro.

“A primeira publicação dos diários de Virginia Woolf ocorreu em 1953, capitaneada por seu marido, Leonard. Com mão editorial pesada para preservar a intimidade das pessoas citadas (boa parte das quais ainda estava viva), Leonard limou tudo o que não se referia à escrita de Virginia, intitulando o volume apropriadamente de A Writer’s Diary [Diário de uma escritora]. A íntegra só seria publicada trinta anos depois, no fim dos anos 1980”, informa Ana Carolina Mesquita, ainda na apresentação do livro.

O livro é organizado pelos dias, meses e anos que constavam nos diários originais manuscritos de Virginia Woolf, mantendo a divisão das datas e formatos construídos pela própria autora. Por exemplo, em uma terça-feira, dia 5 de janeiro de 1915, Virginia escreveu: “Três corpos foram encontrados ontem em Teddington deslizando rapidamente rio abaixo. Será que o clima inspira suicídio? O Times trouxe um artigo estranho sobre um acidente ferroviário, no qual dizia que a guerra nos ensinou um senso adequado da proporção da vida humana. Sempre pensei que dávamos a ela um valor excessivo; mas nunca pensei que o Times fosse dizê-lo.” Este trecho demonstra o tom das páginas dos diários da autora de Mrs. Dalloway, seu romance mais popular, escrito em 1925, e de Um teto todo seu, coletânea de ensaios elaborados a partir de palestras em duas faculdades inglesas exclusivas para mulheres, entre outros – a forma como Virginia Woolf encarava um mundo em guerra e como esse mundo impactava a sua subjetividade feminina e a sua maneira de experimentar a vida em um corpo de mulher.

“Virginia Woolf é uma das maiores escritoras do século 20, por isso deve ser lida e relida. Fui me envolvendo com a obra dela e me espantando com a sua atualidade”, afirma Simone Paulino, diretora editorial da Nós. Ela classifica a publicação dos diários de Virginia com um dos projetos mais importantes da sua vida. A primeira publicação da escritora britânica pela Nós foi o ensaio autobiográfico Um esboço do passado (160 páginas), que Virginia Woolf decidiu escrever depois de um alerta da sua irmã, Vanessa Bell, de que se não começasse a colocar a sua própria história no papel, logo estaria velha demais para isso.

Virginia estava lendo Freud enquanto elaborava os ensaios que viriam a compor Um esboço do passado, o que, segundo Ana Carolina Mesquita, a ajudou a trazer à tona reflexões sobre o homem complexo que era seu pai, com quem, no livro, admite sentir uma “profunda identificação, e que de muitas maneiras moldou a escritora que ela viria a ser”.

"O que intimamente chamamos de Projeto Dalloway ganhou um corpo e uma vida próprias dentro da Nós. Tanto que decidimos expandir o projeto deste ano com a publicação de um trio de ensaios fundamentais e muito iluminadores para o nosso momento contemporâneo: A morte da mariposa, Sobre estar doente e Pensamentos de paz durante um ataque aéreo. São todos eles pequenas pérolas, que iluminam o passado e o presente, e quem vamos publicar em versão bilíngue”, acrescenta Simone Paulino.

Sobre Virginia Woolf
Virginia Woolf (1882-1941) é uma das escritoras mais importantes do século 20 e um dos nomes mais relevantes do Modernismo. Além do romance Mrs. Dalloway (1925), a autora britânica também escreveu contos, textos autobiográficos, ensaios e histórias infantis. Participou ativamente dos debates de seu tempo, tanto literários como sociais, realizando palestras e escrevendo artigos. Ao lado de seu marido, Leonard Woolf também fundou a editora Hogarth Press.

Sobre Ana Carolina Mesquita
Ana Carolina Mesquita, tradutora, é doutora em Letras pela Universidade de São Paulo e autora da tese que envolveu a tradução e análise dos diários de Virginia Woolf. Foi pesquisadora visitante na Columbia University e na Berg Collection, em Nova York, onde estudou modernismo britânico e trabalhou com os manuscritos originais dos diários. Também traduziu Um esboço do passado, publicado pela Editora Nós.
Sobre a Editora Nós:

Criada pela jornalista e escritora Simone Paulino, a Nós é uma editora brasileira conhecida por seus projetos literários inovadores. Nas publicações da Nós se destacam a qualidade editorial e gráfica, e principalmente a missão de interferir na formação cultural dos leitores e na sociedade, por meio da articulação transparente, democrática e inclusiva de parceiros que também compartilham deste ideal. Sempre em busca de um intercâmbio cultural e intercontinental, a Nós marca presença constante em países da Europa, como França, Itália e Portugal, onde acaba de abrir seu primeiro escritório fora do Brasil.