MEIO AMBIENTE

Pesquisador da Fipe destaca na COP-30 o potencial das RPPNs para preservar a água e a vida no Estado do Rio

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Por RITA MARIA SCARPONI
Especial para o Jornal do Brasil

Publicado em 18/11/2025 às 15:19

Alterado em 18/11/2025 às 15:25

José Guilherme Figueiredo, pesquisador da Fipe, palestrando na COP 30 Foto: Rita Maeia Scarponi/JB

Belém (PA) - Uma das palestras mais interessantes da COP-30, que não foca só na preservação da floresta Amazônica, mas se aplica a todos os biomas do país, foi a do engenheiro agrônomo José Guilherme Figueiredo. Pesquisador da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP) com 40 anos de formação e vários anos de especialização na área de gestão e mapeamento de territórios para restauração florestal com biotecnologia industrial, ele tem desenvolvido uma série de trabalhos de ordenamento e gestão de território com foco em mudanças climáticas.

Entre os projetos que apresentou na palestra, destaca-se o “Regenera Rio - Vidas em Conexão”. Trata-se de rede de corredores de biotecnologia desenvolvidos para fomentar a bioeconomia da Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro. O objetivo é conectar fragmentos florestais no estado, para reverter a perda de diversidade que já afeta a fauna e a flora e ameaça futuras gerações na escassez de água para o abastecimento humano.

Para o pesquisador, apesar da última descoberta de petróleo da Petrobras na Bacia de Campos, o Rio de Janeiro precisa se preparar, desde já, para uma nova economia de transição energética (face à redução da produção de óleo e gás das bacias de Campos e de Santos na próxima década, quando a exploração se deslocar para a Foz do Amazonas, no Amapá), na qual uma das grandes vertentes pode ser a bioeconomia agrícola regenerativa por meio de florestas produtivas, uma das saídas da preservação da floresta amazônica.

O potencial da restauração
O fomento a essa nova economia de florestas produtivas, de agricultura regenerativa em larga escala, tem um potencial de cerca de 1 milhão de hectares para restauração em todo o Estado Rio de Janeiro promovendo a transformação social na relação do homem com a Terra, a partir de corredores de bioeconomia que preservam a biodiversidade e garantem o fluxo gênico.

Ele considera estratégico gerar um ambiente de negócios para o fornecimento de serviços aos ecossistemas que aumenta a resiliência climática, e incentivar o mercado de cotas de reserva ambiental. O RJ foi o primeiro estado a lançar uma política de cotas de reserva ambiental em RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural). Os corredores de bioeconomia conectam as RPPNs do estado e isso permite criar valor, como se fosse um selo socioambiental e econômico, por meio das reservas RPPNs

José Guilherme Figueiredo prefere batizar os corredores que unem as áreas de matas nativa no ERJ como “conexões de vida”, porque “são verdadeiras redes de vidas em conexão com as pessoas que vivem na área, num ambiente associado a uma nova economia que se pretende florescer com a restauração e conexão desses corredores”, sustenta.

Na modelagem computacional, esses corredores somam cerca de 4 mil quilômetros no Estado do Rio de Janeiro, correspondendo a uma área entre 75 mil e 77 mil hectares. José Figueiredo destaca que quando foi feita a modelagem desses corredores, constatou-se que 63% das suas áreas já são de fragmentos florestais. Apesar do Vale do Paraíba do Sul não ter recuperado as matas nativas devastadas com a cultura do café no século 19, o maior desafio é conectar esses fragmentos para que se possa ter cerca de 50% do território em áreas protegidas, dentro do arcabouço municipal estadual e federal.

O fomento a essa nova economia de florestas produtivas, de agricultura regenerativa em larga escala, tem um potencial de cerca de 1 milhão de hectares para restauração em todo o Estado Rio de Janeiro promovendo a transformação social na relação com a terra a partir de corredores de bioeconomia, que preservem a biodiversidade e garantam o fluxo gênico.

“Isso é um diferencial incrível para o Estado do Rio, que tem um notável arcabouço de políticas públicas relacionado à preservação do meio ambiente”, diz. Ele considera que esses corredores facilitam a promoção do fluxo gênico entre esses fragmentos florestais para reforçar a carga gênica capaz de prover resiliência das espécies que vivem no bioma da Mata Atlântica.

Depois da boa recepção de sua apresentação na COP-30, ele volta ao Rio mais motivado para fazer essa grande rede de conectores. O Rio de Janeiro é o único estado que tem um plano de corredores de bioeconomia que percorre todo o território do estado, com um projeto que integra os fragmentos de maneira a promover esse fluxo gênico, destaca.

Espécies em extinção
“Já temos várias espécies em extinção ou processo de extinção no Estado do Rio de Janeiro que fazem parte do Livro Vermelho da Mata Atlântica, em risco de extinção do Brasil”, adverte. Isso é superurgente perante as questões das mudanças climáticas porque, quando as condições climáticas são alteradas, essas espécies perdem a capacidade de resiliência. A conexão dos corredores permite que algumas espécies de animais que estejam em determinado fragmento fluam para os outros fragmentos.

O desafio das terras degradadas
Vale ressaltar que essa temática relacionada aos corredores de bioeconomia surgiu e vem ganhando mais espaço no ambiente empresarial e no ambiente público. Nessa interação público-privada - sociedade civil organizada há um debate muito forte porque estamos vivendo os desafios das terras degradadas.

Apesar de redução no desmatamento no Estado do Rio, José Guilherme diz que tem havido muitos problemas com incêndios porque esses fragmentos florestais, com a perda de diversidade em seu interior, ficam vulneráveis a incêndios quando há uma seca intensa, o que é mais frequente com as mudanças climáticas. “É preocupante quando a gente passa numa estrada e vê as florestas pegando fogo, sem uma ação de governo ou da iniciativa privada. Falta uma cultura de encarar as florestas como geradora de riqueza. As pessoas só veem a floresta com um ambiente de natureza”, lamenta.

Na Amazônia, diz, isso é entendido por que na floresta tem o açaí, tem a castanha do Pará, o cupuaçu e cerca de 219 espécies que fazem parte da cultura e da economia da Amazônia. No Sudeste nós temos a Mata Atlântica, mas falta a consciência da sua importância para melhorar a qualidade do ar e até a produção de água para os grandes centros urbanos do Rio e São Paulo.

Ele conta que, numa viagem de São Paulo para Minas Gerais, viu quase todos os fragmentos florestais, próximos a usinas de açúcar e álcool, queimados. E por que não há ação concreta para evitar que o fogo atinja as florestas? E muitas florestas paulistas foram resultado de bilhões de reais investidos por usinas de açúcar e álcool na restauração. Mesmo assim, o fogo penetrou nessas florestas e as dizimou por não se dar elas o devido valor econômico.

José Guilherme cita o bom exemplo dos povos primitivos da Amazônia. “A floresta cultivada pelos povos primitivos é uma floresta que tem muita castanha, mas a “castanha do Pará” não é exclusiva do Pará; é da Amazônia, porque foi plantada no Acre, no Amazonas. No açaí, são populações nativas manejadas. “É preciso aprender a restaurar a Mata Atlântica gerando riqueza aos povos que vivem próximos, para torná-la um ambiente de valor”, assinala.

Risco de faltar água
Nem todos sabem dos problemas das restrições hídricas que ameaçam os quase 14 milhões de habitantes do Grande Rio. Há um trabalho maravilhoso, o “pacto pelas águas”, que mapeou cerca de 400 a 500 e poucos pontos de captação de água. O estudo demonstrou que já há estresse hídrico no RJ, que compromete o abastecimento da população. Na modelagem dos corredores de bioeconomia foram indicados os caminhos de menor distância e menor custo para unir fragmentos que preservem os recursos da água.

Isso cria uma cultura de preservação, mas gerando riqueza. Uma cultura focada só no mercado de carbono ou na restauração ou só na importância dos fluxos gênicos não vai fazer um processo de restauração e produção de alimento de qualidade, dos corredores de bioeconomia, assinala Figueiredo.

Remédios de manipulação
Outro potencial do Rio de Janeiro é a maior rede de farmácias de manipulação de medicamentos homeopáticos, de farmácias homeopáticas. O Brasil tem um déficit de quase US$ 2 bilhões por ano de fito fármacos com importação de biofármacos. Esses corredores de bioeconomia podem produzir biofármacos, alimentos de qualidade sem agrotóxico. O Rio de Janeiro é muito dependente de alimentos de outros estados. “Se produzirmos mais alimentos dentro do próprio estado, reduziremos as emissões com transporte de alimentos”, diz.

Para ele, cabe interagir as escolas rurais com as urbanas. Conectar o homem rural com o homem da cidade, para as pessoas voltarem a entender a importância do campo. Que, por sinal, está precisando de mão de obra qualificada para um ambiente mais produtivo e com uso mais racional da tecnologia, garantia de aumento da produtividade e da renda na área rural, com uma agricultura regenerativa que recupere áreas degradadas e preserve as florestas da Mata Atlântica, cujo efeito final será uma elevação da biodiversidade e a maior resiliência das condições hídricas.

O valor da restauração
Uma forma de gerar mais serviços e negócios aos ecossistemas e fortalecer a bioeconomia da restauração é potencializar o mercado de cotas de reserva ambiental. O Rio de Janeiro foi o primeiro estado a lançar uma política de cotas de reserva ambiental em RPPN. Os corredores de bioeconomia conectam as RPPNs e isso permite criar valor como se fosse um selo socioambiental e econômico, por meio das RPPNs.

Figueiredo vai além. As RPPNs fortalecem os ativos socioambientais do Estado do Rio de Janeiro – água, biodiversidade e carbono -, promovendo produção local de alimentos saudáveis para abastecer, via máquina pública, escolas, creches, asilos, restaurantes populares, e famílias em situação de vulnerabilidade climática e social. O Estado conta com forte base científica: a Embrapa Solos, a Embrapa Agrobiologia, a Universidade Federal Rural do RJ, a Federal Fluminense. Esse conjunto técnico científico pode ser fomentado a prover novas tecnologias dedicadas à bioeconomia da preservação.

O desafio da água
Ele lembra que a produção de água para o abastecimento público passa por um grande programa de privatização no sistema de água e esgoto no Estado do Rio de Janeiro. Isso abre espaço para gerar uma economia visando garantir a resiliência hídrica no estado. O projeto é um desafio enorme, não só do RJ, mas, para os estados em que há o ordenamento territorial com justiça climática.

Esses corredores de preservação são geradores-acumuladores de água, observa. Por isso ele os chama de “corredores de bioeconomia”. Na verdade, é bem mais que isso, assinala: “é um corredor de vidas em conexão: vidas animais, vidas humanas, vidas de plantas, tudo em conexão. Não é a floresta distante do homem. É o homem vivendo com a floresta, que produz riqueza. Então a fauna e a flora vão estar na mente das pessoas como algo que gera riqueza e não como algo isolado da presença humana. O Rio de Janeiro tem uma afinidade incrível com a pauta ambiental.

Ele chama a atenção para o fato de que a agricultura fluminense, embora de pequeno valor dentro do PIB agrícola, “tem uma relevância muito grande no interior”. O Rio de Janeiro é um estado que também tem um potencial agrícola e agroindustrial que pode potencializar com essa nova onda da bioeconomia. Ele repisa que os corredores de bioeconomia são peças que integram a dinâmica de uma floresta regenerada, uma floresta produtiva numa área para gerar uma nova relação do Homem com a Natureza no Estado do Rio.

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