Centenas de milhares protestam em Myanmar após alerta da ONU sobre violência

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Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se nesta quarta (17) contra o golpe militar em Myanmar (antiga Birmânia), apesar de a ONU ter alertado que o envio de tropas para Rangum e outras zonas do país fazia temer um aumento da violência.

O relator das Nações Unidas Tom Andrews disse nessa terça-feira (16) à noite ter informações sobre o envio de soldados para Rangum e para outras cidades de Myanmar.

"No passado, os movimentos de tropas como este antecederam assassinatos, desaparecimentos e detenções em grande escala", disse Andrews num comunicado difundido pela ONU em Genebra.

"Estou assustado, dada a confluência destes dois fatores: organização de manifestações e envio de tropas. Os militares podem cometer ainda mais crimes contra o povo de Myanmar", afirmou.

Além das manifestações em Rangum, verificaram-se protestos na segunda maior cidade da Birmânia, Mandalay, e na capital administrativa do país - Naypyitaw - onde são proibidas reuniões de mais de cinco pessoas.

"Vamos marchar em grande número. Vamos mostrar a nossa força contra o golpe que destruiu o futuro da nossa juventude e do nosso país", disse Kyi Toe, porta-voz da Liga Nacional para a Democracia, partido liderado por Aung San Suu Kyi, através de uma mensagem na plataforma digital Facebook.

Nesta quarta (17), na cidade de Rangum, o protesto parecia ser o maior desde o início das manifestações, com centenas de milhares de pessoas. Os manifestantes bloquearam estradas com automóveis, alegando que se encontravam avariados.

Em Naypitaw, milhares de pessoas, incluindo funcionários de instituições bancárias privadas e mecânicos desfilaram pelas avenidas largas da cidade exigindo a libertação de Suu Kyi e do presidente Wun Myint.

Em Mandalay, os manifestantes saíram novamente à rua, depois de na segunda-feira as forças de segurança terem apontado as armas a cerca de mil pessoas em protesto.

De acordo com os meios de comunicação locais, a polícia disparou balas de borracha tendo ferido várias pessoas.

As marchas fazem parte do processo de desobediência civil iniciado pelos profissionais de saúde apoiados pelos funcionários públicos.

O golpe militar, no dia 1º de fevereiro, atingiu a frágil democracia da Birmânia, depois da vitória do partido de Suu Kyi nas eleições de novembro de 2020.

Os militares tomaram o poder alegando irregularidades durante o processo eleitoral do ano passado, apesar de as autoridades eleitorais terem negado a existência de fraudes.

A Junta Militar disse que vai manter-se no poder durante um ano, antes da realização de um novo ato eleitoral.

Nessa terça-feira (16), foi apresentada em tribunal uma nova queixa contra Suu Kyi no sentido de prolongar o regime de prisão domiciliária, em Rangum.

A líder da Liga Nacional para a Democracia - fortemente criticada pela falta de intervenção no genocídio do povo rohingya - já enfrenta processos sobre posse de aparelhos de transmissão considerados ilegais, enfrentando uma pena de três anos de prisão.

Nessa terça-feira à noite os militares ordenaram o bloqueio da Internet no país pelo terceiro dia consecutivo durante a madrugada e está a ser preparada legislação quer permite aos militares vigiarem as atividades dos utilizadores de computadores e telemóveis.

Os militares negam o bloqueio da Internet, mas há informações sobre a possível instalação de um sistema informático que permite bloquear a rede e vigiar as atividades nas redes sociais, com o apoio da República Popular da China.

O embaixador de Pequim na capital da Birmânia já negou o envolvimento da República Popular da China e negou as informações sobre a cooperação em atos de censura ou apoio militar.(com agência Lusa)